

RESUMO: Este artigo apresenta uma discussão sobre a estrutura de dois questionários utilizados em pesquisas na área de formação de professores. Com base nas características das perguntas dos questionários e nas respostas obtidas dos participantes das pesquisas, este artigo tem por objetivo propor a reconstrução dos instrumentos, despertar pesquisadores para a importância da tarefa de elaboração de questionários para coleta de dados e para o cuidado necessário quanto à escolha dos temas em destaque, nas perguntas dos questionários. Retomando aspectos teóricos já discutidos por Ninin et al. (2003), optamos, neste artigo, por uma análise semântica das respostas dos questionários, com o objetivo de criticar e reconstruir os enunciados das perguntas.
PALAVRAS-CHAVE: questionário; perguntas; formação de professores em serviço; instrumentos de coleta de dados.
ABSTRACT:
This article presents a discussion on the structure of two questionnaires
used in researches in the area of in-service teacher education.
Based on the characteristics of the questionnaires´ questions
and on the answers from the researches´ participants,
this article aims at proposing a reconstruction of the instruments,
alerting researchers to the importance of the task of elaborating
questionnaires for data collection and highlighting the necessity
to be careful about the choice of the themes which are present
in the questionnaires´ questions. Based on theoretical
aspects which have already been discussed in Ninin et al. (2003),
we have carried out a semantic analysis of the questionnaires´answers
with the objective of criticizing and rebuilding the statements
of the questions.
KEY-WORDS: questionnaire; questions ; in-service
teacher education; instruments for data collection.
0. Introdução
Em artigo recente (Ninin et al., 2003), estudamos e discutimos
alguns pressupostos teóricos acerca de questionários.
Foram abordados conceitos sobre questionários estruturados
e não estruturados; vantagens e desvantagens de usar
questionários em situações de coleta de
dados; semelhanças e diferenças entre questionários
e entrevistas; características das perguntas de um questionário
quanto à forma, ao tipo, à natureza, ao conteúdo
e à temática. Nosso interesse por esse tema se
deve ao fato de que, em pesquisas que realizamos com professores,
percebíamos, a cada momento em que utilizávamos
questionários, que as respostas obtidas nem sempre iam
ao encontro de nossas expectativas. Assim, iniciamos uma busca
por abordagens teóricas que sustentassem as discussões
advindas das respostas aos questionários e que nos permitissem,
igualmente, reconstruir os enunciados das perguntas apresentadas
aos participantes de pesquisa.
O estudo teórico das características presentes
em perguntas de um questionário, aliado à análise
das respostas obtidas, é que dá sustentação
a este artigo. Dessa forma, ao discutirmos nossos dados, categorizamos
as perguntas dos questionários analisados e procuramos,
através de análise semântica das respostas,
encontrar pontos de convergência e divergência entre
perguntas e respostas.
O primeiro questionário (Q1) foi apresentado em um curso
de formação para professores de inglês da
rede pública do Estado de São Paulo em serviço,
Reflexão Sobre a Ação: o Professor de Inglês
Aprendendo e Ensinando; o segundo questionário (Q2) foi
entregue a quatro professores universitários de um curso
de Letras de uma universidade privada da cidade de Osasco –
SP, participantes de uma pesquisa com foco em ações
na sala de aula. Ao concluirmos o artigo já citado (Ninin
et al., 2003), vimos que há novas formas de analisar
os questionários. Surgiram curiosidades que nos inspiraram
a escrever este novo artigo. Nossas dúvidas eram: De
que forma é possível analisar as perguntas a partir
das respostas? As respostas obtidas correspondem às expectativas
do pesquisador que as elaborou? Qual é a relevância
das escolhas lexicais utilizadas nas perguntas, para a determinação
das respostas?
Neste artigo, portanto, apresentamos algumas perguntas de ambos
os questionários, escolhidas de acordo com o critério
"divergência entre objetivo da pergunta e resposta
dada pelos participantes", com base na análise
semântica das respostas obtidas.
1.
Fundamentação teórica
Este artigo se organiza em quatro seções que têm
por objetivo tratar, sob o ponto de vista teórico, os
aspectos que envolvem a construção de um questionário
e sua análise. Na primeira seção –
Questionários: aspectos gerais que permeiam sua elaboração,
apresentaremos conceitos básicos que envolvem um questionário
e algumas dificuldades em trabalhar com esse instrumento como
fonte de dados para pesquisas. Na segunda, Questionários:
prós e contras em relação ao seu uso, apresentaremos,
além das vantagens e desvantagens do uso dos questionários,
possíveis formas de complementar os dados obtidos. A
terceira, Questionários: características, discutirá
as diferentes possibilidades para a elaboração
das perguntas, quanto à forma, ao tipo, à natureza,
ao conteúdo e à temática. Finalmente, na
quarta seção – Questionários: da
ciência dos significados à semântica, discutiremos
o referencial de análise que nos permitiu analisar as
respostas dos participantes visando à reconstrução
dos questionários.
1.1.
Questionários: aspectos gerais que permeiam sua elaboração
A elaboração de um questionário para coleta
de dados em pesquisa está relacionada à pergunta
geral da pesquisa, às perguntas específicas e
ao número de pesquisados. Gillham (2000) alerta-nos para
o fato de que desenvolver um questionário cujos dados
valham a pena é difícil. Se as questões
apresentadas ao pesquisador forem do tipo sim/não, concordo/discordo
e/ou múltipla escolha, o pesquisador terá maior
facilidade na tabulação dos dados, porém,
terá que decidir sobre as possibilidades de respostas
a oferecer ao pesquisado. Assim, quanto maior o número
de opções oferecido mais significativos serão
os dados que o pesquisador terá para análise.
Um aspecto, no entanto, deve estar presente às reflexões
do pesquisador, sempre que fizer uso de questionários:
quais as possíveis interpretações para
as perguntas apresentadas? Ou seja, perguntas de um questionário
não serão entendidas por participantes de pesquisa
segundo a ótica do pesquisador apenas, mas segundo critérios
pessoais relacionados ao conhecimento de mundo de quem tem a
tarefa de responder às perguntas e isso implica um olhar
abrangente do pesquisador no sentido de antever possíveis
interpretações para as perguntas, não se
prendendo apenas à sua visão.
Ao elaborar um questionário, portanto, é importante
que o pesquisador tente utilizar diferentes estilos de perguntas
/ respostas, de modo a não tornar o questionário
enfadonho e cansativo para o pesquisado. Gillham (2000) observa
que questionários mal elaborados podem apresentar respostas
sem que realmente estejam relacionadas à intenção
e/ou à ação do pesquisado e que, nesses
casos, pouco contribuirão para a pesquisa.
Segundo Gil (1999:133-4), a escolha das questões de um
questionário está condicionada a fatores tais
como a natureza da informação desejada e o nível
sociocultural dos interrogados, dentre outros. O autor sugere,
ainda, que algumas regras básicas sejam observadas:
- incluir apenas questões relacionadas ao problema pesquisado;
- não incluir questões cujas respostas possam
ser obtidas de forma mais precisa por outros procedimentos;
- levar em conta as implicações da questão
com os procedimentos de tabulação e análise
dos dados;
- incluir apenas questões que possam ser respondidas
sem maiores dificuldades;
- evitar questões que penetrem na intimidade das pessoas.
Quanto à escala de explicitação, os questionários
podem apresentar diferentes graus que vão desde os não-estruturados,
com baixo grau de clareza, incluindo-se aí perguntas
abertas para as quais é esperado que o pesquisado responda
de uma maneira descritiva, até os estruturados, com alto
grau de clareza, que requerem do participante marcas claras
sobre acordos e/ou desacordos, seleção entre várias
alternativas.
Quanto às respostas obtidas por meio dos questionários,
o pesquisador poderá deparar-se com situações
em que os participantes utilizam-se de mecanismos de defesa
em busca de proteger-se de situações que os constranja
ou os avalie. Algumas medidas poderão ser tomadas quando
da elaboração do questionário, na tentativa
de minimizar essa questão apontada.
a) Em defesa da face: quando o participante
acredita que sua resposta permite que ele seja julgado pelo
pesquisador, pode responder de forma estereotipada, encobrindo
sua real posição. Convém, portanto, evitar
iniciar um questionário por perguntas que trazem esse
risco. Perguntas articuladas podem minimizar essa situação
pois o pesquisador poderá, a partir da triangulação
dos dados, verificar a autenticidade das respostas.
b) Em defesa de posições pessoais:
quando o participante se vê frente a perguntas que solicitam
opinião pessoal, como por exemplo, "O que você
pensa sobre tal coisa?" ou "Em sua opinião,
por que ...", a resposta pode ser evasiva, com alegação
de não estar seguro sobre o assunto ou não ter
opinião sobre ele. Convém, portanto, não
iniciar um questionário com esse tipo de pergunta. Perguntas
indiretas podem trazer maior contribuição ao pesquisador
sobre as opiniões pessoais do participante.
c) Em defesa do conservadorismo: a resistência
às mudanças é natural e participantes podem
apresentar respostas que indiquem conformismo, quando se trata
de assumir mudanças. As escolhas lexicais para o caso
de perguntas sobre mudanças devem ser cuidadosas. Nesse
caso, perguntas indiretas também podem trazer maior contribuição
ao pesquisador.
d) Palavras estereotipadas: a utilização
de jargões (no caso das pesquisas educacionais) podem
levar o participante a apresentar preferências por determinadas
respostas. Devem ser evitadas, portanto, palavras carregadas
de peso ideológico e/ou modismos pedagógicos.
e) Referências a personalidades em destaque:
deve-se evitar referências a pessoas que suscitam simpatia,
antipatia, autoridade moral, desprezo político etc.,
em busca de minimizar a explicitação de juízo
de valor por parte do participante.
1.2.
Questionários: prós e contras em relação
ao seu uso
Os itens relacionados a seguir, baseados em Gillham (2000),
Seliger & Shohamy (1989) e Gil (1999) resumem pontos relevantes
ao pesquisador, sobre o uso de questionários para coleta
de dados em pesquisas.
1.2.1.
Pró questionários
- baixo custo, pois não exige treinamento de pesquisadores;
- facilidade em obter informações de forma rápida
e de grupos grandes de participantes, podendo ser enviado por
correio ou internet;
- respondentes podem completar o questionário quando
desejarem;
- análise de respostas para perguntas fechadas é
relativamente direta;
- menos pressão para uma resposta imediata;
- garante o anonimato do respondente;
- preconceitos / preferências do entrevistador não
interferem nas respostas;
- isenta pesquisador e pesquisados de serem influenciados por
considerações pessoais de ambos;
- padronização de perguntas;
- pode prover dados sugestivos para testar uma hipótese.
1.2.2.
Contra questionários
- problemas na qualidade dos dados (perfeição
e precisão);
- necessidade para brevidade e perguntas relativamente simples;
- quem responde fica incerto quanto ao destino dos dados;
- problemas de motivação dos respondentes;
- enganos não podem ser corrigidos pois os participantes
ficam impedidos de esclarecer dúvidas durante o processo
de responder o questionário;
- desenvolvimento de questionário é freqüentemente
pobre;
- só busca a informação contida na pergunta;
- respostas podem ser organizadas e 'preparadas';
- falta de controle do pesquisador sobre dados relacionados
ao contexto;
- exclui pesquisados não alfabetizados;
- é mais fácil às pessoas falar do que
escrever;
- impossível aferir a seriedade ou honestidade das respostas;
- dados nem sempre são devolvidos pelos participantes;
- itens apresentados podem ter diferentes significados para
os participantes.
Com base nas vantagens e desvantagens de utilização do questionário, apresentadas acima, é possível afirmar que a realização de uma entrevista como complemento pode dar ao pesquisador dados mais consistentes sobre o fato pesquisado. Numa das pesquisas envolvidas neste artigo, uma entrevista foi utilizada após a coleta de dados via questionário, visando à obtenção de esclarecimentos em relação às respostas dadas pelos participantes. A utilização desse segundo instrumento só foi possível mediante análise das respostas ao questionário e verificação de inconsistências não somente em relação às expectativas do pesquisador, mas também em relação à própria elaboração do questionário.
1.3.
Questionários: características
Neste item procuramos organizar didaticamente as possibilidades
de perguntas para um questionário, a fim de facilitar
a compreensão do leitor. É importante observar
que os aspectos citados a seguir, quando considerados na elaboração
de um questionário, contribuem para maior eficácia
desse instrumento de coleta de dados. Cabe ressaltar que a maioria
das perguntas oferecidas como exemplo nos quadros pertencem
aos dois questionários analisados em nosso estudo.
1.3.1.
Perguntas quanto à forma
* Matriciais (Babbie, 2001):
- aparecem em forma de tabela de dupla entrada;
- mostram-se eficientes, por agilizarem o processo de responder
e permitir a comparação imediata entre as respostas;
- perigo: o formato simplificado pode induzir o respondente
a padronizar respostas.
Exemplo: Assinale e detalhe os cursos que você já
fez:
Tabela 1
Curso |
Nome
do Curso |
Instituição |
Área |
| Graduação | |||
| Especialização | |||
| Aperfeiçoamento | |||
| Extensão | |||
| Mestrado | |||
| Outros |
*
Declarativas:
- apresentam uma declaração e solicitam comentário
a respeito.
Exemplo: Comente a frase "Eles não sabem nem português,
para que aprender inglês?"
*
Interrogativas (diretas / indiretas):
- diretas: aparecem topicalizadas pelos marcadores de função
interrogativa (que, quem, qual, quanto) e suas variantes, e
pelos pronomes explicativos (por que, para que, como), empregados
na formulação das perguntas.
Exemplo: Quem dará a aula amanhã, no lugar do
professor X?
- indiretas: forma híbrida de questionamento, em que
se mescla, na declaração, uma negação.
Exemplo: Ainda não se sabe quem dará a aula amanhã,
no lugar do professor X.
*
Listas (sim/não, falso / verdadeiro, múltipla
escolha, escala de valores, preenchimento de lacunas):
- aparecem em forma de alternativas a serem consideradas pelo
respondente.
Exemplo: O ensino da gramática é um componente
de seu curso?
( ) sim ( ) não
*
Gráficas:
- aparecem em forma de imagens e solicitam que o respondente
estabeleça relações.
Exemplo: Associe as imagens às teorias de aprendizagem
trabalhadas:
Figura 1
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1.3.2. Perguntas quanto ao tipo
* Pergunta fechada (tipo sim-não) - (Marcuschi, 1991;
Nunan, 1992; Gil, 1999)
- uma série de possíveis respostas já é
apresentada pelo entrevistador na própria pergunta, restringindo
as alternativas de réplica do entrevistado;
- as possíveis respostas são predeterminadas.
Exemplo: Que fontes você usa para a escolha de textos
para suas aulas:
( ) livro didático ( ) internet ( ) revistas ( ) outros
*
Pergunta aberta (informativa) - (Marcuschi, 1991; Nunan, 1992)
- o entrevistado pode decidir o que dizer e como dizer;
- realiza-se a partir de algum marcador do tipo Quem? Qual?
O quê? Como? Por quê? etc.
Exemplo: Como seus alunos perceberam o objetivo da aula?
Que tipos de textos você usa em suas aulas?
*
Pergunta dependente (Gil, 1999)
- pergunta que depende da resposta da pergunta anterior.
Exemplo:
* Você utiliza livro didático?
* Se você respondeu Sim, quem o escolheu? Por quê?
* Se foi você quem escolheu o livro, quais seus critérios
para a escolha?
* Se não foi você quem escolheu o livro, sabe por
que foi escolhido?
1.3.3.
Perguntas quanto à natureza
* Pergunta etnográfica (Spradley, 1979):
- principal instrumento para descobrir o conhecimento cultural
do entrevistado.
* Descritiva - possibilita ao entrevistado apresentar diferentes
aspectos do objeto da entrevista.
Exemplo: Conte como foi acontecendo a explicação
que você deu para seu aluno. O que você ia dizendo?
E ele, o que dizia?
* Estrutural - possibilita descobrir aspectos do conhecimento
cultural do entrevistado; possibilita descobrir de que forma
o entrevistado organiza seu conhecimento.
Exemplo: O que é para você ser professor?
* Contrastiva - possibilita descobrir as dimensões do
significado que o entrevistado emprega para distinguir os objetos
e eventos no seu meio.
Exemplo: O que significa para você formar um aluno para
o mundo?
*
Pergunta secundária (irrelevante em relação
ao tema):
- pergunta que não contribui diretamente para a progressão
temática da entrevista;
- pergunta que possibilita a manutenção da conversa
mas não necessariamente está relacionada ao tema
discutido.
Exemplo: numa investigação cujo foco é
a forma como o professor questiona seus alunos, a pergunta "Você
retirou a notícia de algum dos jornais da semana?"
pode ser considerada irrelevante.
*
Pergunta polêmica:
- tem como objetivo levar o entrevistado a discutir sobre uma
questão relacionada ao contexto, envolvendo discordância
ou posicionamentos opostos entre pesquisado e pesquisador.
Exemplo: Mediante o que já foi dito pelos colegas, por
que você acha que o trabalho com os jornais pode não
dar certo?
*
Pergunta de esclarecimento:
- tem como função esclarecer a fala do outro durante
a entrevista.
Exemplo: Então o que você está querendo
dizer é que a atividade que você preparou estava
muito ampla?
*
Pergunta delicada:
- trata de assuntos delicados: religião, etnia, práticas
sexuais, renda, opiniões sobre dilemas éticos
e morais;
- recomendadas para o final do questionário.
Exemplo: Qual é sua opinião sobre a sentença
de morte por apedrejamento aplicada às nigerianas em
casos de relacionamento sexual fora do casamento?
1.3.4.
Perguntas quanto ao conteúdo (Adaptado de Gil, 1999)
* Fatos:
- para obter dados concretos sobre o participante: biográficos
(em geral, pergunta fechada) ou envolvendo situações
experienciadas, que o levem a recorrer à memória
(em geral, pergunta aberta).
Exemplo: Cursos feitos por você:
graduação - especialização
-
aperfeiçoamento - extensão -
*
Atitudes e crenças:
- para obter dados referentes a fenômenos subjetivos (em
geral, pergunta aberta);
- difíceis de serem respondidas, pois nem sempre as pessoas
têm opiniões sobre o
assunto questionado, ou têm opiniões que não
expressam uma posição única sobre o assunto.
Exemplo: O que sua prática em sala de aula tem lhe ensinado?
Quais aspectos da língua inglesa você acredita
serem importantes desenvolver na sala de aula de ensino fundamental?
*
Comportamento (passado / presente):
- para obter dados sobre a forma de ação em diferentes
momentos: no passado e no presente (em geral, pergunta aberta);
- para obter dados sobre possíveis comportamentos futuros
do participante, com base em seu comportamento no passado, em
situações similares (em geral, pergunta aberta);
- esse tipo de pergunta pode indicar o comportamento futuro
do participante.
Exemplo: Como você escolhe atividades / estratégias
para suas aulas no ensino fundamental? Apresente um exemplo
pessoal. Quais aspectos da língua estrangeira você
acredita ser importante desenvolver na sala de aula de ensino
fundamental?
*
Sentimentos:
- para obter dados sobre reações emocionais do
participante frente a fatos, fenômenos etc. (em geral,
pergunta aberta).
Exemplo: Comente livremente sobre seu trabalho, sobre a situação
do ensino de língua estrangeira na escola brasileira,
sobre o papel do professor de língua estrangeira ou sobre
este trabalho conjunto que iniciamos hoje.
*
Padrões de ação:
- para obter dados sobre padrões éticos relativos
ao que deve ser feito; podem também envolver considerações
práticas a respeito das ações praticadas;
- podem oferecer um reflexo do clima predominante em relação
à opinião do participante, bem como em relação
ao seu comportamento provável em situações
específicas.
Exemplo: O que você faz quando seu aluno age das maneiras
abaixo? Por que você acha que seu aluno tem esse tipo
de comportamento?
* falta muito às aulas
* dorme em aula
* não faz a lição de casa
* não faz as atividades propostas em aula
* demonstra indiferença
* briga com colegas
* desacata colegas
* desacata você
*
Razões conscientes sobre crenças, sentimentos,
orientações, comportamentos:
- formuladas com o objetivo de descobrir os porquês; referem-se
à dimensão consciente do participante (em geral,
pergunta aberta).
Exemplo: Que aspectos você gostaria de desenvolver em
sua prática? Por quê?
1.3.5.
Perguntas quanto à temática (Baseado em Rea &
Parker, 2000; Babbie, 2001)
* Introdução ao tema:
- perguntas relacionadas ao assunto; informações
factuais com a finalidade de motivar o participante a responder
o questionário;
- devem ser simples, solicitando opinião direta e descomplicada
ou informações factuais básicas.
*
Perguntas afins:
- perguntas cujos temas são relacionados entre si;
- devem ser colocadas juntas, possibilitando ao participante
estabelecer relações imediatas ao responder;
- perguntas consecutivas que tendem a provocar respostas automáticas,
dadas sem reflexão, devem ser evitadas.
*
Perguntas de filtragem ou "peneira":
- formas de isolar, para posterior trabalho, participantes pertencentes
a um subgrupo específico relacionado a um dado subtema.
Os
conteúdos das respostas relacionam-se à maneira
como foram formuladas as perguntas. Assim, perguntas devem ser
elaboradas a partir de um foco e ainda:
- devem ser formuladas de maneira clara, concreta e precisa;
- devem levar em consideração os referenciais
do participante e seu nível de informações;
- devem possibilitar uma única interpretação;
- não devem sugerir respostas;
- devem solicitar uma única idéia de cada vez.
Com base nas possibilidades apresentadas, discutiremos os dois
questionários - Q1 e Q2, objetos de análise deste
artigo.
1.4.
Questionários: da ciência dos significados à
semântica
Para entender o mecanismo de raciocínio utilizado pelos
participantes ao se depararem com as perguntas dos questionários,
optamos, como já foi dito no início deste artigo,
pela análise semântica. Dessa forma, apresentamos
a seguir, esclarecimentos teóricos que embasaram nossa
análise. Como já dissemos, informações
veiculadas por meio de mensagens lingüísticas apresentam
diferentes graus de explicitação e as informações
implícitas nos enunciados dos falantes precisam ser inferidas
com base em um raciocínio que parte do próprio
enunciado (Ilari, 2001). Assim, optamos por analisar os casos
de pressuposição e de acarretamento, nos dados
considerados neste artigo.
1.4.1.
Pressuposição
Segundo Ilari (2001: 85), "uma informação
é pressuposta quando ela se mantém mesmo que neguemos
a sentença que a veicula. (...) Sempre que um conteúdo
está presente tanto na sentença como em sua negação,
dizemos que a sentença pressupõe esse conteúdo."
Podemos, portanto, afirmar que o que caracteriza um enunciado
por pressuposição é o fato de seu conteúdo
se manter, independentemente de modificações e
manipulações sintáticas como negação
ou interrogação.
Podemos entender ainda por pressuposto, aquilo em que a comunicação
se apóia e é dado conhecido para os interlocutores
(Borba, 1932 / 1998). Esse autor define pressuposto com base
em:
- ponto de vista lógico: se o pressuposto é falso,
o enunciado não é nem verdadeiro nem falso;
- ponto de vista das condições de emprego: pressupostos
devem ser verdadeiros para que os enunciados possam ser utilizados
normalmente;
- ponto de vista pragmático: a escolha de um enunciado
comportando tal ou tal pressuposto, introduz modificações
nas relações entre os falantes.
É importante ressaltar ainda que o pressuposto pertence
ao sentido literal, inerente ao próprio enunciado, "evidente"
no universo do discurso considerado (Lopes, 1999).
1.4.2.
Acarretamento
Segundo Ilari (2001: 85), "temos acarretamento toda vez
que a verdade de uma sentença implica a verdade de uma
outra, simplesmente pela significação de suas
palavras." Outros autores (e.g. Ducrot (1969, 1972); Lopes
(1999); Borba (1932 / 1998)) referem-se ao acarretamento como
sentido subentendido. Podemos afirmar que o que caracteriza
um enunciado por acarretamento ou com sentido subentendido é
o fato de seu conteúdo "sugerir" ou "insinuar"
significações que muito dependem do contexto em
que o enunciado é produzido, estando, no entanto, ausente
de tal enunciado.
É importante ressaltar que "o pressuposto se autoriza
no 'nós' que engloba destinador e destinatário,
enquanto o acarretamento ou subentendido se autoriza no 'tu'
do destinatário, nas conclusões que ele extrai
por sua conta e risco (Lopes, 1999:289)." sendo, portanto,
sua, a responsabilidade da interpretação.
2.
Metodologia
A fim de elucidar ao leitor o processo de desenvolvimento das
análises envolvendo os questionários Q1 e Q2,
optamos por descrever a história de sua elaboração
e como, em diferentes momentos das pesquisas, tais instrumentos
tornaram-se alvos de inquietação das pesquisadoras.
Q1 foi inicialmente elaborado em 1995 quando as professoras
docentes do curso Reflexão Sobre a Ação:
o Professor de Inglês Aprendendo e Ensinando reuniram-se
para planejar o curso. A fim de conhecerem seu público-alvo
- os professores de inglês da rede pública do estado
de São Paulo -, em relação às informações
pessoais, formação, visões de linguagem
e de ensino-aprendizagem implícitas em suas ações,
as professoras docentes do curso elaboraram perguntas que formaram
Q1 em sua primeira versão. Desde então, esse questionário
tem sofrido alterações por parte da coordenadora
do curso, dos professores docentes do mesmo, de um grupo de
alunos participantes de um seminário de pesquisa ministrado
no LAEL – PUC-SP e por nós, autoras deste artigo.
Todas as alterações estão relacionadas
não somente às análises feitas pelas professoras
docentes do curso em função das respostas obtidas
dos professores participantes, mas também aos questionamentos
de alunos de mestrado e doutorado participantes de seminário
de pesquisa, que desconheciam o contexto do curso Reflexão
Sobre a Ação: o Professor de Inglês Aprendendo
e Ensinando e, portanto, traziam à tona aspectos até
então considerados evidentes pelos docentes do curso,
mas que, na verdade, apresentavam-se implicitamente nos enunciados
das questões do questionário.
Q2 foi elaborado pela pesquisadora para a coleta de dados de
uma pesquisa com foco no papel da linguagem envolvendo professores
de um curso de Letras. Em sua primeira versão, as perguntas
tiveram origem na intuição da pesquisadora, que
buscou identificar aspectos de relevância relacionados
ao papel da linguagem presente nas ações de uma
professora em sala de aula. Ao questionário seguiu-se
uma entrevista com o objetivo de explicitar pontos obscuros
presentes nas respostas escritas da participante. Com base nessa
entrevista e, numa relação direta com o objetivo
geral de pesquisa e as perguntas de pesquisa, Q2 foi reformulado
tornando-se então o instrumento de coleta de dados. Na
história dessa pesquisa, no entanto, Q2 não foi
considerado como fonte única de dados pois, mediante
as respostas obtidas e também às expectativas
não atendidas da pesquisadora, tal questionário
tornou-se nova fonte de investigação, dando origem
a uma entrevista cujo objetivo foi o de aprofundamento dos temas
desenvolvidos nas perguntas respondidas inicialmente.
É importante ressaltar que no processo de desenvolvimento
de ambos os questionários, as pesquisadoras – autoras
deste artigo – utilizaram o referencial teórico
proposto em Ninin et al. (2003) e, com base nas características
das perguntas quanto à forma, ao tipo, à natureza,
ao conteúdo e à temática, elaboraram as
versões agora em uso em suas pesquisas.
2.1.
Procedimentos de análise
Os questionários Q1 e Q2 são apresentados na íntegra,
nos anexos 1 e 2. Para alcançarmos o objetivo de reconstruir
os questionários com base na análise das perguntas
e respostas, escolhemos, aleatoriamente, o questionário
Q1 respondido por dez professores entre o primeiro e segundo
dias de aula do curso Reflexão Sobre a Ação:
o Professor de Inglês Aprendendo e Ensinando, no primeiro
semestre de 2003. Em relação ao questionário
Q2, quatro participantes de pesquisa o responderam. Em ambos
os casos, as respostas de cada pergunta foram agrupadas e, dessa
forma, procedemos à análise. Neste artigo optamos
por cinco perguntas de Q1 e três perguntas de Q2, escolhidas
em função de maior necessidade de reconstrução,
por haverem possibilitado aos participantes respostas com menor
grau de compatibilidade com as expectativas dos pesquisadores.
Com base em evidências de ordem semântica, presentes
nas respostas dadas pelos participantes às perguntas
propostas em Q1 e Q2, a análise foi realizada. A partir
dela pudemos perceber a predominância de categorias semânticas
subjacentes às questões. Assim, na seção
subseqüente, apresentamos as perguntas que consideramos
merecerem reformulações, em função
das divergências entre respostas e perguntas, ora tendendo
para implicaturas, ora tendendo para abrangências polissêmicas.
3.
Discussão
Nesta seção discutiremos as perguntas e respostas
dos questionários, embasadas na fundamentação
teórica apresentada e na análise semântica.
A partir da análise de Q1 e de Q2 (cf. anexo), percebemos
que algumas respostas apresentadas não corresponderam
às expectativas das pesquisadoras. Assim, julgamos que,
se essas questões tivessem sido elaboradas de outra forma,
a probabilidade de respostas mais reveladoras teria emergido.
Apresentamos, portanto, possíveis reconstruções.
3.1.
Reconstruções em Q1
Em Q1, na seção FORMAÇÃO, item A,
"Assinale e detalhe os curso que vc já fez",
o tipo de pergunta é matricial fechada, cuja função
é a de obter informações sobre fatos. No
entanto, a escolha do item lexical verbal "detalhe"
implica em expor pormenorizadamente (Luft, 2003). No caso, os
fatos em questão não possibilitavam detalhamento.
Dessa forma, substituiríamos o enunciado para "Complete
o quadro sobre os cursos que você já fez".
Na pergunta B, seção FORMAÇÃO, no
enunciado "Como você avaliaria seu curso de graduação
do ponto de vista de/da", percebemos a necessidade de
haver uma substituição do item lexical verbal
"avaliaria" para "descreveria", pois
no verbo avaliar há a idéia de julgar, apreciar
(Luft 2003) e de determinar valor, calcular (Ferreira, 1986).
Tal concepção implícita no verbo avaliar
incentiva o professor-aluno a responder escolhendo adjetivos
para qualificar os cursos, promovendo, assim, juízos
de valor, dando margens ao excesso de respostas subjetivas.
Respostas sobre "relevância do currículo"
que dizem "este foi adequado", "regular",
"tirou C no provão", "é tradicional"
fizeram suscitar dúvidas em relação a o
que foi adequado, por que foi regular, o que ocorreu para que
o curso tirasse C no provão. Outro exemplo pode ser considerado
nas respostas para "contribuição para o
desenvolvimento curricular": "a contribuição
foi apenas teórica", "sai da graduação
com bagagem mínima" e "a contribuição
maior foi o conteúdo". Permaneceram, portanto,
dúvidas das pesquisadoras em relação a
o que seria uma contribuição teórica. Dessa
forma, com base nas respostas acima, não obtivemos conhecimento
de fatos que nos auxiliassem a ter acesso ao tema da pergunta,
relacionado a como o professor-aluno era capaz de descrever
seu curso de graduação.
Esperávamos, para exemplificar, que em "estrutura
curricular", o professor-aluno respondesse algo como "tive
as matérias de Metodologia, Prática de Ensino,
Fonologia, Morfologia, Literatura Inglesa e Americana";
em "metodologia", que respondesse algo como "aulas
expositivas, seminários, palestras, havia trabalhos em
grupos, nos organizávamos individualmente, não
havia trabalho em duplas na sala de aula" etc. Essa expectativa
não alcançada na obtenção das respostas
fez com que substituíssemos o verbo "avaliar"
por um outro que melhor orientasse a resposta. Uma sugestão
de reformulação seria usar o item lexical verbal
"descrever" em lugar de "avaliar".
Na seção VOCÊ COMO PROFESSOR pudemos observar
uma série de dados relevantes para um pesquisador. Ao
ser elaborada a pergunta "Em relação a uma
aula recente de inglês dada por você: Qual o conteúdo
trabalhado? Como você o desenvolveu em sala de aula? Quem
escolheu esse conteúdo? Por que esse conteúdo
foi escolhido? Para que esse conteúdo foi escolhido?",
o objetivo era o de obter informações sobre a
ação do professor-aluno em sala de aula, em relação
a: conteúdos trabalhados durante a aula (Qual o conteúdo
trabalhado?); ações do professor em sala de aula
(Como você desenvolveu o conteúdo em sala de aula?);
questões políticas relacionadas ao poder dentro
da escola (Quem escolheu o conteúdo?); preocupações
sócio-culturais (Por que esse conteúdo foi escolhido?
Para que este conteúdo foi escolhido?), que permeiam
as escolhas do professor-aluno. Embora esse fosse o objetivo
inicial, as respostas não nos informaram o que buscávamos,
em função da falta de detalhes sobre as informações
fornecidas. Por exemplo, ao lermos respostas como:
* o conteúdo foi saudações – o que,
efetivamente, foi ensinado?
* desenvolvi saudações com diálogos - como
teriam sido tais diálogos? quem os teria elaborado? como
foram usados em sala de aula? quais teriam sido os papéis
do professor e dos alunos durante a atividade?
* eu e os outros professores escolhemos o conteúdo –
como teria sido tomada esta decisão? por que um determinado
conteúdo em detrimento de outros?
O grande leque de possibilidades de interpretações
das respostas dos participantes permitiu-nos inferir que a significação
dos termos das perguntas poderia ser menos abrangente, pois
da forma como foram elaboradas, sugeriram um alto grau polissêmico
em sua semântica . Assim, decidimos por reconstruir as
referidas perguntas da seguinte forma:
* Qual foi o conteúdo trabalhado? Exemplifique.
* Como você desenvolveu esse conteúdo em sala de
aula? Quais foram suas ações? O que você
fez, disse, escreveu etc.? Quais foram as ações
de seus alunos? O que eles fizeram, disseram, escreveram etc.?
* Quem escolheu esse conteúdo? Como se chegou a essa
escolha?
* Por que esse conteúdo foi escolhido? Quais as razões
para a essa escolha?
* Para que esse conteúdo foi escolhido? Qual é
a relevância desse conteúdo para a vida de seu
aluno?
Na
seção VOCÊ E A LÍNGUA INGLESA, na
pergunta "Como foi elaborado o planejamento de Inglês
em sua escola?" e em sua dependente "Ele se baseia
em algum livro didático?", pudemos observar nas
respostas uma tendência dos professores-alunos referirem-se
especificamente um livro didático. Isso nos fez pensar
o que aconteceria se a pergunta não sugerisse que um
currículo é ou deva ser embasado em um livro didático.
Dessa forma, nossa sugestão de reconstrução
seria: "Como foi elaborado o planejamento de Inglês
em sua escola? Em que ele se baseia?" Em nossa análise
semântica percebemos a presença de acarretamento
expresso nos itens lexicais planejamento, baseia e livro didático,
levando os participantes a excluírem outros possíveis
instrumentos para uso na elaboração de planejamentos.
Na mesma seção, na pergunta "Para você,
qual é a diferença entre texto didático
e texto autêntico?", seguida das dependentes "Pode-se
trabalhar com ambos igualmente? Exemplifique sua resposta.",
observamos que a pergunta elaborada pressupunha que o respondente
conhecesse a diferença entre texto autêntico e
texto didático, e soubesse como trabalha-los. No entanto,
a maioria dos respondentes demonstrou em suas respostas não
ter esse conhecimento, tecendo comentários inconsistentes,
como por exemplo "o texto didático apresenta mais
especificamente uma determinada parte gramatical", "dependendo
do conhecimento prévio dos meus alunos, acho que os dois
textos podem ser trabalhados igualmente", não nos
permitindo alcançar sua compreensão sobre o item
em questão. Dessa foram, nossa sugestão para a
reformulação seria: "O que você entende
por texto autêntico e por texto didático? De que
forma você trabalha com esses textos? Exemplifique."
3.2.
Reconstruções em Q2
Quanto às modificações em Q2, observamos
(cf anexo 2) que a maioria das perguntas é do tipo etnográfica
estrutural, que pressupõe, por parte do respondente,
respostas relacionadas a conhecimento cultural, crenças
e atitudes. Observamos nas questões "O que é
pra você ser professor" e "Como você
vê a relação de ensino- aprendizagem em
sua aula", que os itens lexicais verbais induziram a respostas
subjetivas, voltadas mais para o ser professor, pouco informando
sobre ações em sala de aula. No entanto, esse
era o objetivo principal da pesquisadora. Sendo assim, poderíamos
substituir essas perguntas por: "Como você define
o papel do professor?" e "Descreva uma situação
de ensino-aprendizagem presente em sua ação em
sala de aula."
A predominância do uso dos itens lexicais verbais "ver",
"entender", "compreender", carregam,
em suas significações, situações
não palpáveis, o que permite respostas bastante
abrangentes, voltadas para o excesso de subjetividade e, portanto,
ausência de esclarecimentos sobre aspectos didáticos
desejados (cf. perguntas 5, 6, 8, 14). Esses verbos, a nosso
ver, poderiam ser substituídos por outros que denotassem
significado voltado para a ação do fazer.
Finalmente, a pergunta "É importante para você
terminar o conteúdo proposto? Por quê?" teve
um movimento inverso, uma vez que houve aí uma polarização
entre o sim e o não. Pouca importância foi dada
ao marcador interrogativo "por quê". Contudo,
a retomada de uma melhor explicação que revelasse
mais o espaço do sim e do não, pôde ocorrer
durante a entrevista.
Do
que foi exposto, pudemos observar que muitas respostas foram
provocadas por perguntas que carregavam em seu bojo uma certa
pressuposição. Assim, poderíamos dizer
que houve predominância de uma categoria semântica
baseada em evidência de significação com
base em pressuposição, principalmente nas questões
presentes em Q1. Também o acarretamento surge como uma
categoria forte nas respostas, principalmente nas perguntas
de Q2, pois o uso de verbos cognitivos traz como conseqüência
respostas que implicam um ponto de vista subjetivo por parte
dos participantes.
Frisamos ainda, que as sugestões de alteração
não garantirão que as respostas nos informem exatamente
o que imaginamos e esperamos dos participantes de pesquisa.
Mais uma vez, salientamos a importância de questionários
como instrumentos geradores de dados norteadores de futuras
investigações para uma pesquisa. O ideal é
que haja a possibilidade de pesquisador e colaborador conversarem
em uma entrevista, por exemplo, para que o pesquisador possa
elaborar perguntas capazes de trazer elucidações
sobre as respostas obtidas.
4.
Algumas considerações finais
Com a realização do estudo sobre questionários,
pudemos perceber que as informações contidas nas
mensagens lingüísticas, implícitas ou explícitas,
estão relacionadas a fatores que envolvem desde formulação
dos enunciados das perguntas apresentadas aos respondentes,
ao contexto situacional, no qual tanto respondentes quanto proponentes
se encontram envolvidos. Foi-nos possível trilhar um
outro caminho para a elaboração de perguntas que
constituem questionários e é possível dizer
ainda, que nosso caminhar tornou-se mais consciente e responsável
em relação à construção de
questionários como instrumentos de pesquisa. Em geral,
tendemos a considerar essa tarefa como o simples ato de criar
uma lista de perguntas para os participantes de pesquisa responderem,
de forma que nossos objetivos sejam atendidos. No entanto, após
a análise dos questionários, ficou patente a necessidade
de conhecer profundamente o tipo de pergunta feita, de forma
a criar espaços para respostas que não só
nos conduzam aos objetivos de pesquisa propostos, como também
sirvam de ponto de partida mais fortemente calcado na conscientização
para a reflexão sobre a prática de nossos participantes
de pesquisa.
Assim, por meio deste estudo percebemos que conhecer o instrumento
utilizado para coleta de dados, seja ele um questionário
ou uma entrevista, envolve um "movimento reflexivo"
minucioso e crítico do pesquisador, no sentido de percorrer
os significados implícitos e explícitos dos enunciados
proferidos por todos os envolvidos, que, certamente, oferecerá
maior possibilidade de alcance dos objetivos a que se destina
o trabalho.
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