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Simpósio I: COMPASS: A Linguística Aplicada na Graduação e na Pós-graduação em Letras – Por uma mudança da totalidade do ensino-aprendizagem

Maria Cristina DAMIANOVIC (COMPASS/ NUCEPI/ Letras/PPG Letras/ UFPE)

COMPASS - Comunicação para a Paz por meio de Atividades Sociais – é um projeto de pesquisa e extensão universitária, é coordenado pela Profa. Dra. Maria Cristina Damianovic Professora Adjunta de Língua Inglesa, no Departamento de Letras, do Centro de Artes e Comunicação, da Universidade Federal de Pernambuco. Está vinculado ao grupo de pesquisa NUCEPI – Núcleo de Estudos em Compreensão e Produção (Inter)Linguísticas do PPG-Letras-UFPE. Os dados que serão apresentados no I Simpósio de Linguística Aplicada e o Educador de Língua Inglesa (LAELI) referem-se à Fase I do COMPASS, de janeiro a julho de 2010. Sinalizações do andamento e resultados da Fase II do COMPASS serão também apresentados.

Em relação aos objetivos gerais, à luz da Liguística Aplicada, COMPASS tem como propósito oferecer ao professor de Língua Inglesa (LI) em formação ou em serviço, principalmente para atual na rede pública, uma comunidade de ação na qual ele possa envolver-se na atividade de "desenvolvimento humano diretamente inter-relacionado às possibilidades de participação e aos contextos em que elas ganham vida" (Gimenez e Mateus, 2009:125). Visa transformar as condições sociais da educação de LI , com base em princípios de uma sociedade mais justa e humanizada (Freire, 1970). Com o objetivo de co-construir a relação dialética e dialógica (Bakhtin/Volochinov, 1929/1992) entre linguagem e constituição da consciência humana com objetivos de transformações sociais, culturais, éticas e políticas, COMPASS visa o pensar e agir do professor de LI nas escolas, na comunidade escolar e na condução de pesquisas com responsabilidade social (Moita Lopes, 2008) por meio de uma formação contínua de educadores e pesquisadores (Liberali e Magalhães, 2009) vista como uma atividade revolucionária ligada ao fazer história pela criação de Zonas de Desenvolvimento Proximal (Vygotsky, 1933) nas quais a linguagem é constituinte de cada ser humano e, portanto, essencial na atividade humana de criar sentido e significado para uma aprendizagem conduzindo ao desenvolvimento de um agir à frente de nós mesmos para mudar totalidades (Newman e Holzman, 1993/2002). Sentido é compreendido como a soma fluída, dinâmica, instável e com restrição espaço-tempo de todos os eventos psicológicos que a palavra desperta na consciência e significado é entendido como uma produção social, convencional e de natureza relativamente estável (Vygotsky, 1934/1987).

O ser humano nasce com necessidades; aquelas "necessidades em si" puramente biológicas e, aquelas geradas pelo desenvolvimento da produção (Fuga, 2009). Segundo Marx & Engels (1883/2007), a satisfação das necessidades elementares cria necessidades novas, não necessariamente ligadas ao corpo humano, mas à produção material da vida humana, o que "constitui o primeiro ato da história" (Marx & Engels, 1883/2007: XXV). A partir daí, Leontiev (1978/2004) explica que as necessidades, enquanto força interna, só podem ser realizadas na atividade. A atividade é vista como a unidade da vida que orienta o sujeito no mundo dos objetos, por meio de instrumentos, que são construídos pelo homem, a partir de seus sentidos e significados para produzir os meios de satisfazer suas necessidades vitais. Uma atividade é realizada por meio de ações; toda ação tem um objetivo para alcançar, assim como toda a atividade uma necessidade para satisfazer. A ação pode ser realizada por várias maneiras que incluem diferentes operações que o indivíduo realizará para alcançar seu objetivo. Por sua vez, as operações se referem aos procedimentos que o sujeito realizará para alcançar seu objetivo. São, portanto, dirigidas por condições e por ferramentas que possibilitam a ação (Fuga, 2009).

Nessa esteira filosófica, a Atividade Social também busca fundamentos no construto espinosano com a noção de não-separabilidade (Spinoza, 1677/ 2003) na qual nada, em nenhum momento, pode ser separado de sua relação com o mundo. Esse olhar monista, discute que a unidade é sempre uma forma de realização da totalidade, já que unidade e totalidade são indissociáveis; a intervenção sobre a parte repercute no todo. A interação entre participantes na atividade gera confiança e forma um indivíduo duas vezes mais poderoso do que cada um deles tomado separadamente, justamente pelo fato de pertencer a uma totalidade (Spinoza, 1677/2003, IV, escólio). Nessa direção, ao desenvolver uma Atividade Social, torna-se relevante pensar na organização e no espaço físico que, de alguma forma, incidem no movimento dos envolvidos, já que a parte não pode ser desligada do todo. Esse é um dado que promove o trabalho colaborativo, o que significa maior entendimento e maior potência no agir dos envolvidos na interação (Fuga, 2009).

COMPASS sublinha a importância da formação de professores de LI por meio da Atividade Social e das interações no contexto pesquisado. Pelo fato de não ser estática, a atividade propostas em COMPASS possibilitam ver o desenvolvimento dos interagentes e compreender diferentes ações que organizam a Atividade Social e os instrumentos mediadores utilizados nessas ações. A Atividade Social promove a interação dos participantes, permite a negociação de significados em torno de um mesmo objetivo, além de que sua dinâmica torna possível observar a constituição crítica do sujeito. Na atividade, ao relacionar-se com o outro por meio de significados compartilhados, os seres humanos são ouvidos em uma participação colaborativa entre o eu e outro numa intensidade emocional e numa zona de ação desconfortável voltada à seleção, à adequação, à redução, à ampliação dos sentidos para encontrar formas de agir de forma colaborativa num espaço de vida (Holzman, 1997) do nós que possibilita a superação de restrições, limitações, do individualismo, da alienação recorrente no ambiente escolar (John-Steiner, 2000).

Colaborar implica compreender o compartilhamento de significados como um exercício de conflito, de negociações sobre sentidos relacionados a teorias e práticas, aos porquês das escolhas feitas, às regras que organizam os contextos específicos focais, aos papeis dos participantes na divisão do trabalho, à compreensão das necessidades dos participantes e aos motivos em agir (Liberali e Magalhães, 2009:45-46). Também envolve a partilha, a apropriação, a recusa, a aceitação, a confrontação e a combinação dos vários sentidos para a criação-transformação de contextos para a construção coletiva do objeto da atividade em pesquisa: o ensinar e aprender a língua inglesa no contexto escolar. COMPASS está dividido em dois sub-projetos: Inglês para Vida: A Linguagem para Transformar Totalidades e PAZLIN, que foram criados dentro da concepção monista que explica a unidade entre corpo e alma: "nem o corpo pode determinar a alma a pensar, nem a alma pode determinar o corpo ao movimento ou ao repouso ou a qualquer outra maneira de ser (se acaso houver outra)" (Spinoza 1677/2003, p. 199). COMPASS é uma célula geradora monista com seus dois sub-projetos interligados por seus focos de estudo que visam uma virada lingüístico-cultural (Fabrício,2008), uma agenda política (Rajagopalan, 2008) e uma transformação ética contemplando os conhecimento ideológicos da linguagem e do conhecimento (Moita Lopes, 2008).

O subgrupo Inglês para a vida: a linguagem para transformar totalidades , doravante Inglês para a vida, tem como público alvo professores de LI em formação na Letras, e Professores de LI, bem como coordenadores e diretores de escolas de LI em serviço ou em realização de pesquisa, principalmente na Rede Pública. Inglês para a vida tem como objetivos gerais oferecer ao professor de LI perspectivas para que ele possa, dentro de uma visão sócio-histórico-cultural (Vygotsky, 1933) para o ensino-aprendizagem de LI desenvolver-se e oferecer aos seus alunos de LI oportunidades para que eles também possam envolver-se nesse desenvolvimento significando serem capazes de enfrentar e resolver as contradições reais do mundo, tanto na prática, quanto intelectualmente (Engestrom, 1996/2005). Num processo colaborativo de ressignificação da LI nas práticas sócio-pedagógicas e nas identidades pessoais e profissionais, contribuir para a valorização das práticas discursivas em LI. Dessa forma, visa uma revisão das estruturas vigentes e de uma real inserção do professor de LI no universo da práxis, no mundo da recriação da aprendizagem emancipatória e da formação de professores numa perspectiva sócio-histórico-cultural de mudar-se com o outro. O foco está no desenvolvimento de sentidos no processo de busca de alternativas para o ensino-aprendizagem de LI para uma superação e novas possibilidades de práticas com base naquilo que é local e culturalmente significativo (Gimenez e Mateus, 2009). Seus objetivos específicos centram no oferecimento de oportunidades para o aperfeiçoamento do desempenho em LI, o desenvolvimento de uma maior e mais profunda compreensão dos processos de ensino-aprendizagem da LI como língua estrangeira , a compreensão do papel da LI no contexto educacional brasileiro a fim de aprofundar a compreensão dos objetivos e necessidades de aprendizagem da LI, o estabelecimento de bases teóricas da reflexão crítica como instrumento de transformação do ensino-aprendizagem da LI, o aprofundamento da construção e avaliação criativa cidadã do planejamento e organização da ação docente na aula de LI e a otimização de possibilidades de formação e manutenção de comunidades de aprendizagem na área de LI .

O subgrupo de pesquisa PAZLIN: Linguagem para a paz por meio de atividades sociais tem como público alvo professores de LI em formação na Letras, e Professores de LI, bem como coordenadores e diretores de escolas de LI em serviço ou em realização de pesquisa, principalmente voltados para ações na rede pública. Seus objetivos gerais são co-produzir Paz entendida como um processo dialético e histórico (Holzman, 2002), envolvendo professores, alunos e comunidade escolar num processo de ser e de tornar-se na construção social, coletiva e colaborativa por meio de co-construção de significados em contextos que propiciam a colaboração pela argumentação. Os participantes interagem em ZPDs mútuas desenvolvidas no estabelecimento de contradições e conflitos (John-Steiner, 2000). esse processo emerge a linguagem, duplamente entendida como mediadora e instrumento de trabalho na organização do pensamento para a compreensão e reconstrução do mundo no qual estamos inseridos (Dutra e Melo, 2009). A linguagem materializa o processo ao mesmo tempo em que constitui a prática pedagógica. Trabalhar com a linguagem significa desenvolver um poder emancipatório que surge à medida que há uma instrumentalização dos educadores para refletir sobre suas ações (instrumento) e para agir na sala de aula (objeto) (Liberali, 2007).

O PAZLIN é compreendido como a possibilidade da criação colaborativa de sentidos dentro da sala de aula e na comunidade escolar para a criação de um movimento de responsibilidade que envolve responsabilidade – o outro cria e é criado nos enunciados produzidos – e responsividade – respostas às necessidades colocadas pelo mundo (Bakhtin, 1929/1992) escolar. A linguagem se torna tanto o objeto a ser construído para criar espaços para a participação maior de educadores nas discussões sobre sua prática, como instrumento para desenvolver idéias e construir propostas concretas para a reconstrução das ações (Liberali, 2009) da escola e da comunidade escolar. Nesse sentido, a argumentação tem um papel essencial na produção de compreensões colaborativo-criativas da realidade à medida que restringe e amplia o embate entre os sentidos que, ao mesmo tempo em que promove a manutenção de aspectos essenciais do significado partilhado em outros contextos, também expande esse significado no embate entre os vários sentidos que o compõem (Magalhães e Liberali, 2009). No PAZLIN o desenvolvimento é compreendido à luz das práticas culturais e das circunstâncias promovidas nas comunidades que também se transformam. Nesse sentido o objeto dos estudos que buscam explicar o desenvolvimento humano torna-se o movimento criativo de apropriação da atividade mediada, e o objeto de análise focaliza nas atividades sociais nas quais as pessoas se envolvem e nos modos como essas atividades se transformam no processo de transformação dos indivíduos (Gimenez e Mateus, 2009).

Os objetivos específicos do PAZLIN são recriar na sala de aula de LI conhecimento no interior de práticas conflituosas em que diferentes perspectivas, valores e ideologias se encontram, se confrontam e se transformam para um ensino-aprendizagem mais eficiente por meio do desenvolvimento lingüístico-discursivo de professores de LI em formação e em serviço; o oferecimento de instrumentos de linguagem para uma atuação pedagógica mais consistente aos objetivos propostos pelas entidades educacionais; a construção de caminhos de ação pedagógica direcionados às necessidades e desejos dos discentes na comunidade escolar; e o estímulo da profissionalização docente na perspectiva crítico-social.