

Comunicação apresentada na Universidad Nacional, en la Facultad de Filosofía y Letras, da Escuela de Literatura y Ciencias de Lenguaje, en el I Congreso Internacional de Lingüística Aplicada, en Heredia, Costa Rica. 23-25 de octubre de 2007.
Introdução
Neste artigo, pretendo fornecer um panorama do papel social da crônica brasileira, salientando sua função como um manifesto de conflitos para o desenvolvimento crítico-político da cidadania do leitor e escritor brasileiro. Inicialmente, relaciono o meu papel de Lingüista Aplicada à minha atuação como poeta e cronista. Posteriormente, descrevo o percurso da minha decisão de escolher a crônica como um dos gêneros literários pelo qual expresso meu papel de jornalista, poeta, fotógrafa, repórter, espiã da vida, ou seja, de uma cronista cidadã brasileira. A seguir, as características centrais da crônica são apresentadas a fim de que incentivar o leitor-escritor a engajar-se no movimento de reescrever um Brasil mais engajado nas transformações sociais, históricas e culturais das injustiças intricadas na sociedade brasileira.
Lingüista Aplicada e Escritora: papéis compatíveis
Sou
uma Lingüista Aplicada, e por essa razão pertenço
a uma ampla área que acredita que a linguagem existe
inserida em contextos nos quais é, ela mesma, uma forma
de ação que, como os próprios contextos,
é constitutiva dos sujeitos envolvidos e constituída
por eles (Liberali, Magalhães, Lessa e Fidalgo, 2007:174).
Como uma Lingüista Aplicada que atua na área de
formação de alunos, professores, coordenadores
e diretores escolares, nos últimos vinte e dois anos
tenho estado diretamente em contato com diversos seres humanos
de diferentes comunidades escolares, sempre visando a desenvolver
formas para que essas pessoas, outros colaboradores e eu possamos,
pela ação da linguagem, compreender e mudar os
contextos que constituímos e nos quais somos constituídos.
Como uma educadora engajada e ao mesmo tempo angustiada com
a situação social, histórica e cultural
plena de injustiças contra o brasileiro no final do século
XX e início do século XXI, sentia a necessidade
de ampliar minha área de atuação como cidadã.
Um fervor de procurar estar em vários lugares ao mesmo
tempo, lutando por um Brasil melhor, invadia-me. Precisava agir
de forma mais ampla, com o intuito de envolver mais pessoas
no processo de uma ação transformadora de nosso
país.
Busquei ao meu redor, ou melhor, em mim mesma, formas de estender
a envergadura de impacto de minha ação cidadã.
Na época, meus dois amores profissionais eram a Lingüística
Aplicada e a Literatura.
Pensei comigo mesma, "a Literatura possibilitará
que eu esteja em vários lugares ao mesmo tempo. Posso
entrar em várias casas de comunidades, cidades, estados
e países. Conseguirei passar por esse portal de multiplicação
de minha ação através dos livros! É
isso, preciso escrever livros para que sejam lidos e para que
eu possa, pelo fenômeno da linguagem literária,
escancarar, para o leitor, experiências culturais vitais.
Assim, ele também ansiará participar da (re)construção
da tradição histórica da nossa vida nestes
tempos. "
Determinada em ir em frente com esse plano, organizei o projeto
"Páginas Literárias para um desenvolvimento
crítico-político de novos leitores e escritores",
e iniciei minha carreira de publicação literária
em 2003. No início do "Páginas Literárias
para um desenvolvimento crítico-político de novos
leitores e escritores", escrevia poesia. Enxergava o mundo
em verso. Todavia, no verso não havia espaço para
toda a minha inquietude.
A crônica: um texto de escritores 100% Brasil
Meu
material era a palavra como instrumento de formação
do ser. Como poderia organizar essas palavras de forma que pudesse
relacionar aprendizagem e vivência para uma reforma integral
do indivíduo na sua consciência do eu + o outro
+ mundo?
A resposta que encontrei foi: "a crônica! É
por aí que irei. Serei uma cronista (Damianovic, 2008,
2007, 2006, 2005), e uma cronista que pesquisa, com seu olhar,
as injustiças sociais intrincadas na sociedade brasileira".
Optei pela crônica por várias razões. Segundo
Novaes (2003:15), a literatura tem uma tarefa fundamental a
cumprir nesta sociedade em transformação: a de
servir como agente de formação, seja no espontâneo
convívio leitor/livro, seja no diálogo leitor/texto.
Escolhi a crônica porque, segundo Sá (2005:10),
através dela, o cronista deseja cumprir sua função
primordial de antena do povo, captando tudo aquilo que nós
outros não estamos aparelhados para depreender. O cronista
explora as potencialidades da língua, buscando uma construção
frasal que provoque significações várias
(mas não gratuitas ou ocasionais), descortinando para
o público uma paisagem até então obscurecida
ou ignorada por completo.
Ao descortinar uma paisagem da nossa sociedade, posso atuar
junto à construção da cidadania, que é
entendida como processo construtivo, que se organiza pela compreensão
da necessidade de constante redefinição de valores
e práticas que constituem a ação... a cidadania
é entendida a partir de ações que vão
além do simples ensinar os direitos e deveres pré-concedidos,
mas que se desenvolvem no debate com os cidadãos sobre
critérios éticos e políticos que configuram
a práxis cidadã nos diversos contextos de ação
(Liberali, Magalhães, Lessa e Fidalgo, 2007:176).
A crônica traz à tona valores de um povo e revela
ações que suscitam debates para a revalorização
de critérios éticos e políticos. O cronista,
no seu papel de narrador-repórter (Sá, 2005:07),
faz da crônica uma soma de jornalismo, fotografia, poesia
e literatura. Do jornalismo, a crônica empresta a característica
de que quem narra uma crônica é o seu autor mesmo,
e tudo o que ele diz parece ter acontecido de fato, como se
nós, leitores, estivéssemos diante de uma reportagem
(Sá, 2005:09). Dessa forma, o leitor da crônica
transporta-se para dentro da história e dela quer saltar
com toda força para reagir ao experimentado na história.
A crônica cria um desejo de ação no leitor
para envolver-se na práxis cidadã.
Da fotografia, a crônica herda a verossimilhança
a um fato real, transportado para a ficção em
fotos materializadas em palavras.
Como o poeta, o cronista também tem em seu sangue uma
indignação diante dos absurdos que compõem
o dia-a-dia - no caso, do brasileiro. Há no cronista
a dor social do poeta que, com um toque de lirismo reflexivo,
capta um instante brevíssimo que também faz parte
da condição humana e lhe confere (ou lhe devolve)
a dignidade de um núcleo estruturante de outros núcleos,
transformando a simples situação de diálogo
sobre a complexidade das nossas dores e alegrias (Sá,
2005:11).
E, além disso, escolhi a crônica porque sou uma
brasileira que trabalha para desenvolver o seu país.
Como dizemos, "visto a camisa" do Brasil, e nada
mais justo do que escolher um gênero literário
100% brasileiro! A crônica, da forma como é escrita
no Brasil, isto é, seguindo as características
descritas acima e as que serão apresentadas a seguir,
só se realiza no Brasil. É um texto verde-amarelo
que nasceu com o descobrimento do nosso país, com a carta
de Pero Vaz de Caminha ao rei Dom Manuel. A certidão
de nascimento da Literatura Brasileira foi emitida ali, com
a primeira crônica escrita. Antes dessa carta, a crônica
era um relato cronológico de fatos. Porém, a chegada
ao país possibilitou que os escritores de relatos cunhassem
um novo gênero literário. O Brasil era muito surpreendente
para ser descrito somente pelo relato. O que os escritores da
época viram em nosso território nacional os descompôs
literariamente para que pudessem compor uma crônica com
sangue brasileiro. Isso possibilitou o surgimento de uma construção
textual elaborada com uma linguagem que fala de perto ao nosso
modo de ser mais natural (Candido, 1992:13).
Assim, sou uma escritora que opta pela crônica, um texto
insinuante e revelador que ensina a conviver intimamente com
a palavra, fazendo que ela não se dissolva de todo ou
depressa demais no contexto, mas ganhe relevo, permitindo que
o leitor a sinta na força dos seus valores próprios
(Candido, 1992:15).
O
cronista: um espião contratado para recuperar a capacidade
crítica do leitor
O cronista é um espião da vida (Sá, 2005:21).
Seu trabalho auxilia o leitor a compreender quem ele é,
para melhor prosseguir em sua vida (Sá, 2005). Esse entendimento
é desenvolvido porque a crônica escolhe um fato
capaz de reunir em si mesmo o disperso conteúdo humano,
pois só assim ela pode cumprir o antigo princípio
da literatura: ensinar, comover e deleitar (Sá, 2005:22).
Na minha percepção, teríamos que acrescentar
mais um item à lista mencionada por Sá (2005):
ensinar, comover, deleitar e trazer inquietude ao leitor, para
que ele possa recuperar sua capacidade crítica e examinar
criticamente alguns ângulos da vida urbana (Sá,
2005:45-46).
É importante salientar a consonância que há
entre o cronista e o Lingüista Aplicado. O segundo estuda
as ações humanas em contextos variados e, por
meio de diferentes áreas do conhecimento, observa como
a linguagem realiza/ medeia/ transforma tais ações,
tendo por base as condições de injustiça
dentro das quais os sujeitos circulam(Liberali, Magalhães,
Lessa e Fidalgo, 2007:175). O primeiro, o cronista, registra
pela linguagem e por ela revela as ações humanas
em contextos variados, inspirados na vida real. Os dois se inter-relacionam
e, a meu ver, constroem uma moralidade (Liberali, Magalhães,
Lessa e Fidalgo, 2007) dentro de uma visão dimensional
que é social, histórica e culturalmente definida,
nas quais as ações adquirem significados.
O escritor da crônica: palavras finais sobre um cidadão crítico-político
Como
Lingüista Aplicada, busco criar espaços para o questionamento
dos valores, normas e direitos, para que os participantes possam
superar a percepção naturalizada de moralidade
que os impede de reconhecer suas posições de sujeitos
históricos, isto é, de uma moral que os subjuga
a uma condição de executores de uma ordem inevitável,
inquestionável e universal que os domina, embora não
por uma coerção visível (Liberali, Magalhães,
Lessa e Fidalgo, 2007:177). Meu papel de cronista aumenta minha
capacidade de atuar dessa forma porque o cronista evidencia
os sujeitos históricos de tal forma que possibilita ao
leitor passar do papel de leitor ingênuo ao de leitor
cidadão crítico-político. Há uma
substituição da ingenuidade pelo senso crítico
(Sá, 2005:78). Procuro impulsionar o leitor a, a partir
da ficcionalização de fatos e pessoas, dar um
salto maior do plano individual e particular para o plano coletivo
e universal (Sá, 2005:86).
Esse salto é possível porque a crônica é
construída para persuadir o leitor a examinar, investigar
e instigar suas ações, com o objetivo de entrar
numa ação de transformação colaborativa,
aqui entendida como uma ação conjunta para o agir
com foco na compreensão de que a busca por uma perspectiva
transformadora da sociedade não pode se realizar no isolamento,
mas na solidariedade dos agentes envolvidos (Liberali, Magalhães,
Lessa e Fidalgo, 2007:178).
Agentes envolvidos em transformação é o
de que o Brasil mais necessita. O cronista estimula o desenvolvimento
da solidariedade à medida que torna a experiência
vivida mais intensa e que convida seu leitor a colaborar, no
sentido de agir para possibilitar que os agentes participantes
tornem seus processos mentais claros, expliquem, demonstrem,
com o objetivo de criar, para os outros participantes, possibilidades
de questionar, expandir, recolocar o que foi posto em negociação.
[O cronista] implica, assim, conflitos e questionamentos que
propiciem oportunidades de estranhamento e de compreensão
crítica aos interagentes (Liberali, Magalhães,
Lessa e Fidalgo, 2007:181).
Para terminar, é importante frisar o papel colaborativo
da crônica. É através de um manifesto de
conflitos que eu, como cronista, ao longo de minha carreira,
escrevo: para que meu leitor estranhe a si mesmo e a seu mundo.
Assim, ele poderá sensibilizar-se frente às questões
culturais e sociais, a fim de fortalecer movimentos de reconstrução
de um Brasil menos ingênuo e mais crítico.
Referências
Bibliográficas
CANDIDO, Antonio (1992) A Vida ao Rés-do-Chão.
In: A Crônica: O Gênero, sua fixação
e suas transformações no Brasil. Fundação
Casa Rui Barbosa.
DAMIANOVIC, Maria Cristina (2008) De um limão, uma limonada
/ De um limón, uma limonada. Perro Azul.
DAMIANOVIC, Maria Cristina & BLANK, Dulce (2008-orgs) Brasil:
um verde-amarelo em versos. Perro Azul.
DAMIANOVIC, Maria Cristina (2007) Famílias: Sempre-Vivas.
Cabral.
DAMIANOVIC, Maria Cristina (2007 – org) Material Didático:
Elaboração e Avaliação. Cabral.
DAMIANOVIC, Maria Cristina (2006) São Paulo: Caras e
Bocas. Casa do Novo Autor.
DAMIANOVIC, Maria Cristina (2006-org) O Português Dentro
De Uma Visão Crítica. Casa do Novo Autor.
DAMIANOVIC, Maria Cristina (2005) Brasil: Palavras de um Cotidiano.
Casa do Novo Autor.
DAMIANOVIC, Maria Cristina (2005-org) Antologia em Prosa e Verso:
Olhares e Palavras de Alunos de Letras. Casa do Novo Autor.
LIBERALI, Fernanda; MAGALHÃES, Maria Cecília;
LESSA, Angela e FIDALGO, Sueli (2006) Educando para a cidadania
em contextos de transformação. In: the ESPecialist,
vol 27, no. 2: 169-188.
MAGALHÃES, Maria Cecília (2004) A formação
do professor como um profissional crítico. Mercado de
Letras.
NOVAES, Nelly (2003) Literatura Infantil: Teoria, Análise
e Didática. Moderna.
SÁ, Jorge de (2005) A crônica. Ática.
ANEXO
Uma pizza para onze
DAMIANOVIC, Maria Cristina (2007)
In: Famílias:Sempre-Vivas. Pg.15-17 Cabral.
Lisa
descobriu o valor de uma pizza para onze mais ou menos com onze
anos. Como irmã mais velha de uma turminha de nove filhos,
mais pai e mãe, Lisa, sempre que possível, ajudava
seus pais em tudo o que podia. Ela sempre soube da dificuldade
que era criar nove filhos.
Um dia, na tradicional pizza de domingo à tarde - não
era noite, não. Lá, na casa de três cômodos,
dois quartos e uma sala-cozinha, o jantar era à tarde
porque todos dormiam cedo para acordar cedo no dia seguinte.
Oito horas da noite já era hora de todos estarem dormindo.
Nessa tarde, memorável no coração de Lisa,
ela descobriu o valor das casquinhas de pizza com as quais seus
pais sempre faziam a maior festa...
A pizza chega, como de costume. A mãe, hábil na
faca, divide a pizza em vinte e dois pedaços, sendo que
dois eram bem menores que os outros. Junto com a pizza, havia
arroz com cenoura ralada, milho e uns fiozinhos de carne assada,
que D. Izilda fazia questão de colocar no arroz que acompanhava
a pizza: - Toda refeição precisa ter carne, crianças.
Mesmo que seja um barbantinho assim.
A janta começa e Seu Benzo serve os pratos. Uma colher
cheia de arroz e um pedaço de pizza ao lado. Todos são
servidos e todos se deliciam com aquela gostosura de pizza!
- Quero mais! - um dos filhos começa o coro do repeteco.
- Eu quero as casquinhas - o pai dizia. - Quem quer trocar casquinhas
por pedacinhos de pizza? - E lá vinham várias
casquinhas pelas quais ele trocava os minúsculos pedaços
nos quais o seu pedaço, já pequeno, havia se transformado.
A mãe fazia o mesmo. Sempre com uma troca, ela e o pai
davam um pedacinho de seus pedaços junto com mais um
pouco de arroz.
Comendo as cascas pretinhas que chegavam aos seus pratos, pai
e mãe viam a felicidade de seus filhos ao comerem a pizza.
- Agora, quero mais um pedação! - Outro filho
começava o coro do repeteco. Dessa vez, era a vez da
repetição do pedaço grande que ainda havia
na mesa. Afinal, D. Izilda havia cortado a pizza de tal forma
que todos os filhos teriam dois pedaços grandes.
Foi quando Lisa acordou de sua infância e encontrou, na
pizza daquela tarde, sua maturidade. Ao perceber o que os pais
faziam, chegou a sua vez de fazer o mesmo. Comer casquinhas
de puro amor!
- Quem quer trocar casquinhas por pedaços de pizza? -
E foi aquela euforia, porque os irmãos mais novos logo
colocaram um montão de casquinhas no prato da Lisa, que
cortou o seu segundo pedaço em mini-pedacinhos para que
todos os irmãos pudessem ganhar um tequinho.
Olhando para os pais, Lisa sorriu e disse:
- Mãe e Pai, eu também gosto das casquinhas. Tanto
quanto vocês!