

Não é deslocando
a direção
do nosso olhar
iludido
que conseguimos
torná-lo
lúcido e calmo.
É criando
em nós
um novo
modo
de olhar
e de sentir.
Fernando Pessoa
Introdução
Este artigo objetiva, inicialmente, apresentar o contexto atual do leitor e da leitora juvenil. Será destacada a importância do papel político do e da adolescente como pioneiros em modificar prioridades para soluções globais para o planeta Terra. A seguir, o papel da crônica na formação moral e ética do e da jovem será apresentado, juntamente com algumas características que marcam esse gênero literário. Finalmente, o texto terminará com uma reflexão sobre o papel de instrumento-resultado da crônica, do cronista e do leitor de crônicas no processo de sustentabilidade baseado na inter-retro-relação que caracteriza todos os seres em ecossistemas.
A crônica e o e a adolescente como capitães da nave Terra
Cinqüenta
por cento da população mundial tem menos de vinte
e cinco anos (Corcoran, 2006). Desses cinqüenta por cento,
um terço tem idades entre 12 e 17 anos, faixa aqui considerada
como adolescente focal . Como escritora, professora e agente
política (Damianovic, 2005a), acredito que nossos jovens
devam ser considerados e reconhecidos como provedores de soluções
globais e, também, devam ser os pioneiros em modificar
as prioridades que, atualmente, promovem a riqueza material
acima do bem-estar pessoal e da justiça (Talal, 2006).
Estamos no início do século XXI e este é
"um momento crítico da história da Terra,
para a qual a humanidade [principalmente a população
juvenil] deve escolher um futuro (...) À medida em que
o mundo se torna cada vez mais interdependente (...) devemos
reconhecer que somos uma só família humana e uma
só comunidade terrestre com um destino comum. Devemos
nos unir para criar uma sociedade global sustentável
fundamentada no respeito à natureza, aos direitos humanos
universais, à justiça econômica e à
cultura da paz. Com esse objetivo em mente, é fundamental
que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade
almejando à grande comunidade da vida e às gerações
futuras" (La Carta de la Tierra en Acción / Preâmbulo:
24, grifos meus).
Como escritora, percebo que a literatura pode ser uma forma
de, retomando a epígrafe inicial, desiludir o olhar do
e da adolescente para criar um novo modo de olhar e de sentir
esse momento crítico da história do planeta Terra.
Como cronista (Damianovic, no prelo, 2008 a,b,c , 2007, 2006,
2005 b), acredito que a crônica auxilia o homem e a mulher
- no caso deste artigo, o e a adolescente - a se perceberem
como interdependentes de sua comunidade local e planetária.
Planetária porque falamos de um mundo globalizado mas
pouco agimos como homem e mulher globalizados, e muito menos
atuamos como seres planetários, ou seja, seres que não
só moram no planeta Terra, mas que também são
terráqueos capitães dessa nave Terra. Esses capitães
necessitam de parâmetros para seguirem um primeiro princípio,
um lema básico, que é o de entender que "respeitar
a Terra e a vida em toda a sua diversidade é: (i) reconhecer
que todos os seres humanos são interdependentes e que
toda forma de vida, independentemente de sua utilidade, tem
valor para os seres humanos, e (ii) afirmar a fé na dignidade
inerente aos seres humanos e ao potencial intelectual, artístico,
ético e espiritual da humanidade (La Carta de la Tierra
en Acción, Princípios: 42).
A crônica planta árvores literárias para frutos de ação cidadã
Lembro-me,
quando adolescente, de meu primeiro contato com a crônica.
Naquele período "marcado de intensos processos
conflituosos e persistentes buscas de auto-afirmação"
(Ferreira, 1986:48), tive um professor de literatura que me
apresentou a crônica. Com ela, não só acalmei
meu espírito, que estava num reboliço caótico,
como também pude descobrir meu desejo de engajar-me em
uma posição política frente ao mundo ao
meu redor. Descobri, com as crônicas de Machado de Assis,
José de Alencar, Lima Barreto, João do Rio, Olavo
Bilac, Rubem Braga, Vinícius de Moraes, Alcântara
Machado, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo
(que tive o imenso prazer de conhecer recentemente), Lygia Fagundes
Telles, Lya Luft, entre muitos outros e outras estrelas que
entraram em meu coração, os micro-pontos que compõem
as cenas cotidianas e que, normalmente, não são
vistos.
A crônica impulsionou-me, como adolescente, a sair de
uma posição de "parasita" em relação
à minha vida e passar a agir como uma "terráquea
militante", com planos de ação para meu
planeta.
Dessa forma, quando me tornei cronista, sempre quis estar em
mãos juvenis, porque a crônica, na sua função
primordial de antena do povo, capta tudo aquilo que muitos não
estão aparelhados para depreender. O cronista explora
as potencialidades da língua, buscando uma construção
frasal que provoque significações várias
(mas não gratuitas ou ocasionais), descortinando para
o público uma paisagem até então obscurecida
ou ignorada por completo (Sá, 2005). O e a adolescente
vivem um período de escuridão intensa e creio
que a crônica possa iluminá-los nas inúmeras
escolhas que precisam fazer.
Nesse descortinar da vida, a crônica espera que o leitor
e a leitora juvenil, ao terem acesso aos fatos que o cronista
- um espião da vida (Sá, 2005:21) - compartilha,
possam (re)planejar seu papel na comunidade local, dentro de
sua interdependência na vida global da Terra. O e a adolescente
são os capitães da nave Terra. E, quanto antes
tiverem acesso às discussões morais e éticas
implícitas nas crônicas, mais cedo poderão,
como leitores atuantes, compreender quem são, para melhor
prosseguirem em suas vidas.
Esse entendimento é desenvolvido porque a crônica
escolhe um fato capaz de reunir em si mesmo o "disperso
conteúdo humano, pois só assim ela pode cumprir
o antigo princípio da literatura: ensinar, comover e
deleitar" (Sá, 2005:22). Na minha percepção,
teríamos que acrescentar, na lista mencionada por Sá
(2005), mais um item - trazer inquietude ao leitor. Essa inquietação
incentiva a e o jovem a construir, ou "recuperar sua[s]
capacidade[s] crítica[s] e examinar criticamente alguns
ângulos da vida urbana" (Sá, 2005:45-46).
Ao ler e escrever crônicas, o leitor e o escritor podem
examinar os ângulos diversos da vida e escolher um posicionamento
político de atuação frente a ela. A crônica
nos incentiva a nos conscientizarmos sobre o fato de que "devemos
tomar a decisão de viver de acordo com um sentimento
de responsabilidade universal, nos identificando com a comunidade
terrestre (...) Somos cidadãos de diferentes nações
e de um só mundo, num só tempo. (...) Todos temos
responsabilidade frente ao bem-estar presente e futuro da família
humana e do mundo. O espírito de solidariedade humana
e de afinidade com a vida se fortalece quando vivemos em reverência
frente ao mistério de ser, com gratidão ao presente
da vida e com humildade e respeito ao lugar que ocupa o ser
humano na natureza" (La Carta de la Tierra em Acción
/ Preâmbulo: 24).
Se pensarmos que "a grande força que move o universo
das práticas culturais são precisamente as posições
socioavaliativas postas numa dinâmica de múltiplas
interrelações responsivas" (Faraco, 2005:38),
podemos perceber que a crônica tem um papel primordial,
uma vez que ela é uma posição socioavaliativa
em busca de múltiplas interrelações para
ações responsivas. Ela é um texto político,
que "tem uma cara própria, leve, bem-humorada,
amorosa, com um pé na rua" (Santos, 2005: 15).
Para mim, esse pé na rua é fundamental: para agirmos
no nosso planeta, temos que estar nas ruas, trabalhando para
trazer à tona valores de um povo e revelar ações
que suscitam debates para a revalorização de critérios
éticos e políticos. A crônica é,
pois, essencial para que a comunidade juvenil possa construir
suas balizas éticas e políticas para agir no universo
das práticas culturais.
Um raio X da árvore crônica: frutos de palavras e de modos de ação
Ao
fazer um raio X desse gênero literário, é
importante salientar que a "crônica surge na relação
com a imprensa, os primeiros autores recebiam como missão
escrever um relato dos fatos da semana. Eram os chamados folhetins.
Aos poucos a tarefa foi entregue a penas geniais como a de Machado
de Assis, na virada do século XX, e o gênero, sem
pigarrear, sem subir à tribuna, ganhou cara própria.
Passou a refletir com estilo, refinamento literário,
aparentemente despretensioso, o que ia pelos costumes sociais.
Ela nasce de uma necessidade editorial de registrar, comentar
com verve, como desse na telha, o que se via e ouvia pelas ruas"
(Santos, 2005:16).
Retomando o "pé na rua" da crônica,
como cronista, penso ser fundamental salientar como ela é
um texto com "verve". O cronista "não
tem sangue de barata"; ao contrário, em seu/ meu
sangue corre, efervescentemente, uma perplexidade diante dos
absurdos que compõem o dia-a-dia (Damianovic, no prelo).
Indignado, o cronista faz um "casamento entre literatura
e o jornalismo" (Santos, 2005:16) e se torna um "flâneur,
um andarilho que comenta o que vê pelas calçadas"
(Santos, 2005:16).
As ações para mudar o futuro de nosso planeta
estão nas calçadas, nas ruas, avenidas, casas,
prédios, estacionamentos, carros, ônibus, parques,
escolas, placas, letreiros, e por aí vai. Temos que ir,
estar e atuar para mudar. Para alterar planos, precisamos de
desejo e isso a crônica cria, porque ela "envolve
o leitor na práxis cidadã" (Damianovic,
no prelo).
Esse envolvimento é construído a partir de vários
ingredientes que a crônica tem e que agem no leitor e
na leitora, no e na adolescente. Da fotografia, a crônica
herda a verossimilhança a um fato real transportado para
a ficção em fotos materializadas em palavras (Damianovic,
no prelo). Com seu texto montado a partir de uma fotografia
de palavras, o cronista aumenta a capacidade de o público
atuar, pois o cronista evidencia os sujeitos históricos
de tal forma, que possibilita ao leitor passar do papel de parasita
ingênuo ao de cidadão terráqueo crítico-político.
Do jornalismo, a crônica empresta a característica
de que "quem narra uma crônica é o seu autor
mesmo, e tudo o que ele diz parece ter acontecido de fato, como
se nós, leitores, estivéssemos diante de uma reportagem"
(Sá, 2005:09). Como a poesia, a crônica é
enfeitada "com um toque de lirismo reflexivo, que capta
um instante brevíssimo que também faz parte da
condição humana e lhe confere (ou lhe devolve)
a dignidade de um núcleo estruturante de outros núcleos,
transformando a simples situação de diálogo
sobre a complexidade das nossas dores e alegrias" (Sá,
2005:11).
Ao misturar os ingredientes fotografia de palavras, lirismo
reflexivo poético e jornalismo de denúncia, a
crônica impulsiona o leitor, a partir da ficcionalização
de fatos e pessoas, a dar "um salto maior do plano individual
e particular para o plano coletivo e universal" (Sá,
2005:86). Há uma substituição da "ingenuidade
pelo senso crítico" (Sá, 2005:78). Nosso
planeta precisa muito de ações com senso crítico
que ilustrem que nossos objetivos ambientais, econômicos,
políticos, sociais e espirituais estão inter-relacionados
e que, juntos, podemos propor e concretizar soluções
(Boff, 2006). A humanidade escolhe seu futuro; formamos uma
sociedade global para cuidar da Terra e cuidarmos uns dos outros
(Boff, 2006) e quanto mais trabalharmos juntos, mais possibilidades
de mudanças se criarão no mundo (Talal, 2006).
A crônica é uma possibilidade de enxergar o mundo
dentro do "conceito de sustentabilidade humana, que inclui
o pensamento sistemático de unir aspectos ambientais,
sociais, políticos e econômicos dentro de determinações
políticas" (Vilela, 2006:17). Ela é um manifesto
de conflitos para ser lido pelo leitor e pela leitora, pelo
jovem e pela jovem, para que todos estranhem a si mesmos e a
seu mundo e consigam abandonar a apatia parasitária,
avançando rumo à ação de transformação
do futuro da nossa Terra (Damianovic, no prelo).
A crônica: uma floresta de iniciativa para sementes de esforços de colaboração
O
único valor que todos os seres humanos compartem facilmente
é a continuação da vida na Terra. Nesse
objetivo único se unem todos os egoísmos individuais.
É preciso que a identidade da espécie humana tenha
prioridade sobre as identidades mais particulares de fé,
nação, família e pessoa; sem isso, será
difícil entrar em acordo sobre o curso que se deve seguir
para garantir nosso futuro (Csikszentmihalyi, 1993). A crônica
oferece ao leitor, à leitora, ao e à adolescente,
uma vitalidade para que queiram engajar-se no espírito
de solidariedade humana e no desenvolvimento das virtudes humanas.
Ela é um texto que estimula a participação
e a inspiração do leitor em fazer parte do florescimento
futuro da vida.
"O mundo agoniza e conforme abusamos de maneira imprópria
de sua capacidade de sustento, a Terra também agoniza"
(Corcoran, 2006:16). Nessa agonia, o cronista sofre e escreve
seus textos com a dor do poeta, a fim de incentivar que mudemos
"para ontem" a maneira como nos relacionamos uns
com os outros.
"Um movimento humano não nasce espontaneamente
e nem aparece inesperadamente. Sua concepção é
precedida de períodos pré-natais nos quais as
pessoas interessadas compreendem suas necessidades, formulam
suas exigências, organizam-se e preparam-se para a ação"
(Gorbachev, 2006:09). A participação cidadã
é um programa educativo e a crônica é atuante
nesse processo como um instrumento-e-resultado, ou seja, ela
(i) possibilita que haja uma "análise de um fato
[cotidiano]; (ii) dá suporte [com fatos ficcionalizados]
e (iii) expande as idéias enfatizadas para a integração
entre conhecimento genérico e específico"
(Liberali, 2007). A crônica tem uma argumentação
implícita que "é parte do objeto em construção"
[no caso, o objeto é a (re)construção da
atitude humana frente ao processo de inter-retro-relação
com a Terra (Boff, 2007)]. Nesse processo de reconstrução,
"novos significados são permeados por idéias
diferentes (sentidos) dos sujeitos da atividade, que lutam para
aprender juntos e para, dialeticamente, desenhar novas opções
para o futuro; esse processo é a construção
de uma atividade revolucionária" (Liberali, 2007).
A crônica tem compromissos revolucionários! Aprender
a lê-la e escrevê-la faz parte do movimento humano
e é a escola a maior incentivadora para que o jovem e
a jovem possam, através da crônica, compreender
suas necessidades pessoais, formular suas exigências,
organizar-se e preparar-se para agir a partir de pressupostos
éticos e morais. A discussão ética e moral
da crônica é uma força motora que propulsiona
atividades revolucionárias.
Palavras de uma cronista para os jovens capitães da nave Terra: Precisamos agir!
Segundo
Roosevelt (1941), há quatro liberdades humanas essenciais:
1) ser livre para expressar-se (expressão); 2) ser livre
para praticar a religião à sua maneira em qualquer
lugar do mundo (culto); 3) estar livre da necessidade e ter
uma vida saudável e tranqüila (dignidade); 4) estar
livre do medo (segurança). O cronista tem e luta por
essas quatro liberdades; ele precisa delas para concretizar
seu "grito de urgência face às ameaças
que pesam sobre a biosfera e o projeto planetário humano
e também um libelo em favor da esperança e de
um futuro comum da Terra e da Humanidade" (Boff, 2007:55).
"A esperança não é algo dado, ela
se cria" (Corcoran, 2006:16). Precisamos de uma sustentabilidade
humana. Esta "provém do campo da ecologia e da
biologia. Ela afirma a inclusão de todos no processo
de inter-retro-relação que caracteriza todos os
seres em ecossistemas. A sustentabilidade afirma o equilíbrio
dinâmico que permite a todos participar e se ver incluídos
no processo global" (Boff, 2007:64).
O jovem e a jovem são determinantes na realização
dessa esperança. As e os adolescentes são o eixo
central da sustentabilidade. A população juvenil
precisa agir pela responsabilidade compartilhada e interdependente
global. "Os prognósticos são sombrios e
alarmantes sobre o futuro da vida sobre a Terra tal como a conhecemos.
Há uma grande urgência para a ação"
(Boff, 2007:65).
Para finalizar, como cronista, como disse anteriormente, "não
tenho sangue de barata" e você, meu leitor, possível
e esperado leitor de crônicas, diante do que encara em
termos de planeta Terra, pode optar por: a) entrar para o grupo
dos humanos parasitas, sanguessugas e viúvas-negras que,
além de se auto-destruírem, destroem com seu egoísmo
narcisista o que resta do planeta para outras gerações.
Ou, você, nisso creio e para isso torço, pode:
b) entrar para o grupo dos terráqueos que agem por possibilidades
de sermos mais felizes e interdependentes como seres de um mesmo
planeta, habitando uma única Terra. "Depende um
pouco de cada um de nós, de nossa honradez interior,
nossa fé no ser humano, nosso compromisso com a dignidade"
(Luft, 2004:180).
"Para reinventar-se é preciso pensar" (Luft,
2004:21). É preciso que nosso jovem não se deixe
cair na tentação do mais fácil, que é
entrar na inércia de múmia paralítica,
no desânimo, no vazio melancólico comum aos inertes
do nosso planeta.
Como escritora, professora e lingüista aplicada, minha
ação visa a disseminar a leitura e, principalmente,
a escrita da crônica, entre outros gêneros, porque
ao ler e escrever a crônica, começamos a "escutar
as águas interiores e espreitar vultos no fundo –
ou são minha imagem refletida na superfície?"
(Luft, 2004:76). Espero que o leitor e a leitora e a escritora
e o escritor de crônicas vejam suas imagens refletidas
na superfície da escrita, encarem-se bem e decidam-se:
pela inoperância parasítica ou pela ação
pela e para nossa Terra. Sorte na escolha!
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