

Introdução
Este capítulo objetiva apresentar o conteúdo
teórico central da disciplina "A Elaboração
de Material Didático à Luz da Lingüística
Aplicada", ministrada no curso de Mestrado em Lingüística
Aplicada da Universidade de Taubaté (UNITAU), e abordar
o percurso para a elaboração da seqüência
didática "O ensino de português a partir
de resenhas: uma possibilidade crítica.", construída
pelos discentes da referida disciplina. Inicialmente, serão
contrastadas a visão de texto como pretexto para o ensino
da gramática normativa e textual e a visão de
texto que considera fundamentais o contexto e as finalidades
do texto. A seguir, será enfatizada a necessidade de
se transformar a leitura para extração de informações
em uma leitura interpretativa, reflexiva e crítica. Posteriormente,
será traçado um paralelo com a necessidade de
se transformar a visão de língua gramatical em
uma visão que percebe a língua como uma forma
do indivíduo agir no mundo. Será também
enfatizado o papel da linguagem como um instrumento mediador.
Adiante, a noção de gênero será discutida,
bem como as capacidades de linguagem. Finalmente, a seqüência
didática elaborada será apresentada.
O
texto: do pretexto para uma virada enunciativa
A
disciplina "A Elaboração de Material Didático
à Luz da Lingüística Aplicada" - doravante,
somente "disciplina" - foi ministrada no curso de
Mestrado em Lingüística Aplicada da Universidade
de Taubaté (UNITAU) no segundo semestre de 2005, às
sextas-feiras, das 14:00h às 17:00h.
Com o intuito de oferecer aos discentes da disciplina uma oportunidade
para que pudessem refletir sobre algumas formas de ensinar-aprender
um texto, propus, nas três primeiras aulas das quinze
previstas, um estudo sobre o uso do texto como pretexto para
o ensino de algo (fundamentalmente gramatical) e sobre o ensino-aprendizagem
de um texto como uma forma de posicionamento no mundo. Para
tal, foram estudados textos teóricos, discutidos a partir
de análises de material didático pertencente a
um banco de dados que a docente, esta escritora, organiza, com
autorização dos autores, seus alunos em cursos
de formação de professores.
O primeiro ponto teórico estudado foi o do texto como
pretexto para ensinar algum conteúdo. Rojo & Cordeiro
(2004) explicam que, nessa visão, principalmente a partir
da década de oitenta, a perspectiva de trabalho com o
texto, em sala de aula, propiciava o desenvolvimento do hábito
da leitura, estimulava a produção de textos e
oferecia espaço para a análise lingüística,
ou seja, o texto era tomado como objeto de uso, mas não
de ensino.
Posteriormente, segundo essas autoras, o texto se torna um suporte
para o desenvolvimento procedimental de estratégias e
habilidades de leitura e de redação. A leitura
do texto propicia o aprendizado de estratégias variadas
a que o leitor recorre e, na produção, são
agenciadas estratégias de planejamento, revisão
e editoração. À medida que às estratégias
são correlacionados procedimentos, as propriedades estruturais
dos textos passam a ser referenciadas no ensino. Os textos são
ensinados pela sua forma global e se espera que o ensino das
propriedades gere o conhecimento das regras, resultando na leitura
e produção de um texto. Em um ensino-aprendizagem
dessa forma, o texto é um "pretexto" para
o ensino da gramática normativa e textual. Tal concepção
abstrai as circunstâncias da situação de
produção e de leitura dos textos, "gerando
uma leitura de extração de informações
mais do que uma leitura interpretativa, reflexiva e crítica,
e uma produção guiada pelas formas e pelos conteúdos
mais do que pelo contexto e pelas finalidades dos textos"
(Rojo & Cordeiro, 2004:10).
Para essas autoras, a busca de uma postura discursiva ou enunciativa
no que diz respeito ao enfoque dos textos e de seus usos oferece
uma oportunidade para que o texto seja enfocado, na sala de
aula, em seu funcionamento e em seu contexto de produção,
"evidenciando as significações geradas mais
do que as propriedades formais que dão suporte a funcionamentos
cognitivos" (Rojo & Cordeiro, 2004:10-11).
A linguagem: de uma visão gramatical a uma forma de agir no mundo
Paralelamente
à questão da visão de texto, foi enfatizada,
na disciplina, a passagem da visão de linguagem gramatical
dentro de um texto para uma visão de linguagem como "conduta
de agir particular que implica dimensões motivacionais
e intencionais mobilizadas por um coletivo organizado"
(Machado & Bronckart, no prelo). Nessa perspectiva, há
uma atividade que é necessariamente concebida por uma
ação que é mediada por objetos específicos
(instrumentos), "socialmente elaborados, frutos das experiências
das gerações precedentes, através dos quais
se transmitem e se alargam as experiências possíveis"
(Schneuwly, 2004:23). Segundo esse autor, os instrumentos medeiam
uma atividade; dão-lhe uma certa forma; representam,
materializam e significam uma atividade; e transformam comportamentos
numa situação. Para esse instrumento se tornar
mediador, ou seja, transformador da atividade, precisa ser apropriado
pelo sujeito, que constrói os esquemas para sua utilização.
Tomando a atividade como o uso da linguagem em contextos sócio-histórico-culturais
específicos, com objetivos determinados, pode-se entender
que, segundo Vygotsky (1934), a linguagem é um instrumento
mediador que possibilita a construção de uma base
de orientação para uma ação discursiva.
Lousada (2005) explica que, para podermos agir no mundo pela
linguagem, além da aprendizagem da gramática,
é preciso incluir o ensino da situação
de comunicação e dos atos de fala apropriados
a cada situação, ou seja, trata-se de ensinar
textos dentro de uma teoria de análise textual que leve
em conta diferentes aspectos do texto, os diferentes estratos
do folhado textual (Bronckart, 1996). Tal perspectiva teórica
é conhecida como interacionismo sócio-discursivo
(Bronckart, 1996).
A noção de gênero: uma estabilidade que não exclui evoluções
Após as discussões teóricas e a análise de materiais didáticos que ilustravam as visões apresentadas acima em relação ao trato com o texto, foi iniciada, na disciplina, uma segunda parte direcionada à compreensão e à produção de material didático a partir da noção de gênero.
Schneuwly (2004:25) explica que a noção de gênero, tradicionalmente utilizada no domínio da retórica e da literatura, encontrou, provavelmente pela primeira vez, "uma extensão considerável na obra de Bakhtin (1953), à qual se referem numerosos autores contemporâneos". A noção de gênero pode ser entendida levando-se em consideração alguns aspectos que lhe conferem uma "estabilidade de fato, o que não exclui evoluções" (Dolz & Schnewly, 2004:75):
| Estabilidade | Gêneros
são tipos relativamente estáveis, apesar
de mutáveis e flexíveis, de enunciados que
definem o que é dizível. |
| Composição | Os
gêneros são caracterizados por três
elementos dimensionais: * conteúdo temático (os conteúdos e os conhecimentos que são e que se tornam dizíveis por meio dele); * estilo (a estrutura comunicativa e semiótica partilhada pelos textos pertencentes ao gênero, como por exemplo o ato estilístico da seleção que o locutor efetua de uma forma gramatical); * construção composicional (as configurações específicas de unidades de linguagem, que são sobretudo traços da posição enunciativa do enunciador, e os conjuntos particulares de seqüências textuais e de tipos discursivos que formam sua estrutura). |
| Parâmetros | Os
gêneros são determinados por um certo número
de parâmetros: a esfera, as necessidades da temática,
o conjunto dos participantes e a vontade enunciativa ou
intenção (finalidade) do locutor numa determinada
situação. |
Quadro1: Alguns aspectos para entender a noção de gênero. Baseado em Schnewly & Dolz (1987); Dolz & Schnewly (2004); Schneuwly (2004 a,b) e Lousada (2005).
Com base no quadro acima, uma possível definição de gênero a partir de diversos autores poderia ser:
Os
gêneros são instrumentos que fundem a possibilidade
de comunicação em formas relativamente estáveis
tomadas por enunciados em situações habituais,
são entidades culturais intermediárias que
permitem estabilizar os elementos formais e rituais das
práticas de linguagem. Os gêneros estão
presentes em cada esfera da atividade humana. Em cada
uma delas, há visivelmente um sujeito, o locutor-enunciador,
que age discursivamente, em uma situação
definida por uma série de parâmetros, com
a ajuda do instrumento gênero, que é um instrumento
semiótico complexo, isto é, uma forma prescritiva,
que permite, a um só tempo, a produção
e a compreensão de textos. |
Quadro 2: Definição de gênero baseada em Bakhtin (1953/1997); Schnewly & Dolz (1987); Dolz& Schnewly (2004); Schneuwly (2004 a,b) e Lousada (2005).
As capacidades de linguagem: de ação, discursiva e lingüístico-discursiva
Tendo
estudado e analisado exemplos de material didático elaborados
a partir da noção de gênero, os discentes
da disciplina passaram a elaborar seu próprio material
didático para o ensino de Português, uma vez que
a disciplina objetiva elaborar material didático em língua
materna . O gênero escolhido, por sugestão desta
escritora, foi a resenha, por ser um gênero "utilizado
tanto em diferentes atividades acadêmicas, quanto em diferentes
atividades profissionais. Nas escolas de ensino fundamental
e médio e na universidade, por exemplo, ele é
constantemente pedido aos alunos por professores das mais diversas
disciplinas" (Machado, Lousada & Abreu Tardelli, 2004:14).
Uma vez escolhido o gênero resenha, era hora de estudar
as capacidades de linguagem desse gênero.
Para Dolz & Schneuwly (2004:52), à luz de Dolz, Pasquier
& Bronckart (1993), "a noção de capacidades
de linguagem evoca as aptidões requeridas do aprendiz
para a produção de um gênero numa situação
de interação determinada: adaptar-se às
características do contexto e do referente (capacidade
de ação); mobilizar modelos discursivos (capacidades
discursivas); dominar as operações psicolingüísticas
e as unidades lingüísticas (capacidades lingüístico-discursivas)".
Em relação às capacidades de linguagem,
também se pode observar que:
Capacidade |
Descrição |
De
ação |
Representação
do contexto social e do referente. |
Discursiva
|
Estruturação
discursiva do texto; envolve a mobilização
de modelos discursivos, ou seja, as operações
de organização textual do texto a ser produzido,
a escolha de um ou vários tipos de discurso e a
escolha do modo seqüencial ou contextualização. |
Lingüístico-Discursiva
|
Escolha
de unidades lingüísticas ou textualização;
envolve aspectos lingüísticos, várias
operações de textualização
(assegurar coesão textual) e operações
enunciativas (modalização dos enunciados). |
Quadro 3: As capacidades de linguagem. Baseado em Bronckart et al (1985); Schneuwly (1988); Bain & Schneuwly (1994); Dolz & Schneuwly (1996); Schneuwly & Dolz (2004); e Lousada (2005).
O ensino das capacidades de linguagem: a busca de intervenções no meio escolar
"O
desenvolvimento das capacidades de linguagem constitui-se, sempre,
parcialmente, num mecanismo de reprodução, no
sentido de que modelos de práticas de linguagem estão
disponíveis no ambiente social e de que os membros da
sociedade que os dominam têm a possibilidade de adotar
estratégias explícitas para que os aprendizes
possam se apropriar deles" (Dolz & Schneuwly (2004:52).
Para esses autores, a observação das capacidades
de linguagem destina-se a delimitar um espaço de trabalho
possível de ser adotado nas intervenções
didáticas para favorecer a mudança e a promoção
de alunos a uma melhor mestria dos gêneros e das situações
de comunicação correspondentes.
Lousada (2005) afirma que nos comunicamos através de
textos pertencentes a diferentes gêneros; portanto, aprender
a se comunicar é aprender a utilizar o gênero apropriado
e a produzir um texto apropriado à situação
de troca verbal. Para a organização das aprendizagens
em geral e para o processo de apropriação de gêneros
em particular, "as intervenções sociais,
a ação recíproca dos membros do grupo e,
em particular, as intervenções formalizadas nas
instituições escolares são fundamentais"
(Dolz & Schneuwly, 2004:53).
Nessa organização das aprendizagens, Lousada (2005)
ressalta que o ensino de gêneros é necessário
se quisermos preparar os aprendizes para agir no mundo social
(perspectiva acional), pois possibilita a relação
do homem com o mundo através da produção
e compreensão de textos que cumpram sua função
social: a de tornar possível a materialização
e a organização da linguagem para realizar ações
no mundo. Segundo essa autora, os aprendizes deveriam ser expostos
a textos dos mais diferentes gêneros, para que possam
estar aptos a interagir e agir nas diferentes esferas sociais
(quotidiana, literária, escolar, jornalística,
dos negócios, etc.) da atividade humana.
Dessa forma, o gênero pode fornecer "suporte para
a atividade, nas situações de comunicação,
e uma referência para os aprendizes" (Dolz &
Schneuwly, 2004: 75). Como pode ser visto, segundo esses autores,
o gênero não é mais instrumento somente,
mas é, ao mesmo tempo, objeto de ensino-aprendizagem.
A noção de gênero e os futuros Mestres em Lingüística Aplicada pela UNITAU
Os
alunos, autores da seqüência didática que
segue no próximo capítulo, estavam em seu primeiro
semestre do Mestrado. Em um total de oito, esses alunos, que,
a partir de agora, serão chamados de professores-alunos,
são todos professores de inglês e/ou português,
seja no ensino fundamental ou médio, da rede particular,
municipal ou estadual ou do ensino universitário.
Inicialmente, entraram em contato com a noção
de gênero acima exposta a partir da análise de
outros materiais didáticos elaborados em outros contextos
educacionais, também por professores-alunos, dentro do
mesmo arcabouço teórico central deste capítulo.
Paralelamente, foram feitas leituras de textos teóricos
que possibilitaram aprofundar os conceitos dos professores-alunos
na referida área. Posteriormente, os professores-alunos
iniciaram o trabalho didático de elaborar uma Seqüência
Didática à luz de Dolz, Noverraz & Schneuwly
(2004:97), que a definem como sendo "um conjunto de atividades
escolares organizadas, de maneira sistemática, em torno
de um gênero textual oral ou escrito". Segundo esses
autores, uma seqüência didática tem, precisamente,
a finalidade de oferecer aos alunos a possibilidade de compreender
e produzir melhor um gênero, permitindo-lhes, assim, escrever
e falar de uma maneira mais adequada em uma dada situação
de comunicação.
O público-alvo do material desenvolvido é o aluno
do ensino médio, pois se acredita que o conteúdo
temático do gênero escolhido tem relação
com os desejos e as necessidades desse aluno. Além disso,
o estilo e a organização composicional do gênero
resenha podem construir conhecimentos necessários para
que o aluno do ensino médio possa repensar sua organização
discursiva durante um processo de sustentação,
refutação e negociação de posições,
ações presentes no dia-a-dia de um adolescente.
Outra razão para a escolha é oferecer ao aluno
a possibilidade de repensar suas atitudes em relação
ao processo de escolha de ações de linguagem a
serem feitas em seus momentos de lazer, trabalho ou estudo.
Na produção da seqüência didática,
houve uma tentativa esforçada e dedicada de desenvolver
um material para o ensino de português dentro da noção
de gênero. Os professores-alunos engajaram-se em uma produção
coesa e coerente com os pressupostos teóricos estudados.
Porém, a versão do material que segue está
aberta a reconstruções! É fundamental que
o leitor analise a seqüência didática considerando
que é um texto composto por um objeto que pode e deve
ser retrabalhado, revisto e refeito. O texto, ao ser publicado
neste livro, assume o caráter de registrado; no entanto,
os autores, pesquisadores externos e internos e os leitores
podem e devem analisar o que segue e propor reorientações
para os autores e para a orientadora da seqüência
didática, que não têm a pretensão
de que ela seja perfeita.
Boa leitura! Ótima análise! Aguardamos sua colaboração
para que possamos repensar a seqüência didática
que segue.
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