

STAA, B. V. ; DAMIANOVIC, M. C. ; BATISTA, M. E. . Inglês oral para professores de inglês da rede pública: uma experiência em abordagem instrumental. The Especialist, São Paulo, v. 26, n. 1, p. 1-21, 2005.
Abstract
This paper presents an ESP experience which dealt with the speaking
ability of state school teachers of English in São Paulo.
We have taken into account the genres selected based on the
teachers' spoken needs in the classroom as well as in
their development process. We also share our reflection upon
the course design from our perspective as designers as well
as from the participants' perspective concerning the use
of spoken English in the classroom and its applicability of
the knowledge shared during the course to their practice.
Key-words: spoken English, state school English teachers, genre, needs.
Resumo
Apresentamos uma experiência em abordagem instrumental
de ensino de inglês oral em um curso para professores
de inglês da rede pública do Estado de São
Paulo. Levamos em consideração a relevância
dos gêneros escolhidos a partir das necessidades orais
do professor de inglês em sua sala de aula e enquanto
pesquisador. Também partilhamos uma reflexão sobre
o curso a partir do ponto de vista dos seus organizadores e
das professoras-alunas, as suas percepções em
relação ao uso da língua em sala de aula
e à aplicabilidade dos conhecimentos construídos
ao longo do curso nas suas práticas.
Palavras-chave: inglês oral, professores de inglês da rede pública, gênero, necessidades.
1. Introdução
A experiência de 6 anos com a formação continuada de professores de inglês da rede pública no programa a distância oferecido pela PUC-SP, conhecido por Teachers' Links, tem mostrado que os professores de inglês da rede pública do estado de São Paulo (e possivelmente de todo o Brasil) encontram dificuldades de usar o inglês oral em sala de aula pelos mais variados motivos: desconforto com o uso do inglês oral decorrente de sua formação acadêmica, turmas grandes que dificultam o uso de linguagem oral em língua estrangeira ou mesmo falta de uma cultura de sala de aula que promova o uso do inglês oral por alunos e professores.
O presente trabalho tem por objetivo apresentar uma experiência em abordagem instrumental de ensino de inglês oral para professores de inglês da rede pública do Estado de São Paulo. O curso que ora descrevemos é financiado pela Associação Cultura Inglesa São Paulo e desenvolvido em conjunto com a equipe do Teacher´s Links do Programa de Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem (LAEL) na PUC-SP e tem por objetivo promover a melhoria do ensino de inglês da escola pública. Neste trabalho, apresentamos a elaboração do curso presencial, sua implementação e algumas evidências das mudanças ocorridas na vida profissional e pessoal do primeiro grupo de professores que participaram do curso.
2. O contexto de pesquisa
O curso aqui descrito teve dois módulos: o primeiro ocorreu no segundo semestre de 1999 e o segundo, no primeiro semestre de 2000. Teve como público alvo 60 professores inscritos da rede pública de uma cidade do Noroeste do Estado de São Paulo e região, dos quais 44 efetivamente iniciaram o curso. Como todos os professores que participaram do curso são mulheres, a partir deste momento nos referiremos a elas como "professoras-alunas". Elas tinham de 4 meses a 22 anos de experiência em sala de aula. Todas são formadas em Letras pelas faculdades locais, poucas já tinham feito algum curso de extensão ou de língua e apresentavam diferentes níveis de competência lingüística. Elas, em geral, trabalham em contextos em que freqüentemente há falta de material e de recursos e têm turmas que variam de 40 a 60 alunos em suas salas de aula de 5a série do Ensino Fundamental ao final do Ensino Médio.
3. Fundamentação teórica
O curso que ora descrevemos está apoiado sobre dois alicerces teóricos: a abordagem de ensino de inglês instrumental e a teoria de gênero sistêmico-funcional. Abaixo, apresentamos mais detalhadamente a contribuição de cada uma delas para o nosso trabalho.
3.1 Abordagem Instrumental (ESP)
A
abordagem Instrumental de ensino de inglês, também
denominada ESP (English for Specific Purposes), parte da necessidade
do aluno em termos de uso da língua em um contexto específico.
O atendimento dessa necessidade deve levar em conta as habilidades
e tarefas que os alunos devem apresentar na situação-alvo.
Avalia-se a necessidade do aluno a partir da diferença
entre o seu conhecimento prévio e o conhecimento necessário
ou desejável para realizar determinadas atividades na
língua alvo. Também são levados em consideração
os desejos do aluno quanto ao quê aprender em termos de
língua e as suas necessidades de aprendizagem (Hutchinson
and Waters, 1987). Além disso, não se podem esquecer
as crenças dos alunos a respeito de como aprender a linguagem
em termos lingüísticos, de contexto, de relações
interpessoais, de estratégias de aprendizagem e do que
significa aprender uma língua. (Collins, 1992)
Apesar de não termos tido o acesso ideal ao nosso público
anteriormente à elaboração do curso, planejamo-lo
embasadas no conhecimento que temos da situação-alvo
na qual nossas professoras-alunas teriam de usar o inglês
falado. Como imaginávamos que os níveis de habilidade
oral das alunas seriam variados, elaboramos um programa baseado
na situação alvo e não nos diferentes níveis
de conhecimento lingüístico das professoras-alunas.
Além disso, previmos um momento no início do curso
para observar as necessidades e as crenças que as professoras-alunas
manifestavam e elaboramos atividades para acompanharmos o desenvolvimento
de cada professora-aluna com relação ao objetivo
da aula e ao que consideravam ser suas necessidades em cada
momento.
Para elaborar o planejamento inicial do curso, identificamos
as situações alvo em que as professoras-alunas
teriam de usar inglês falado. No nosso caso, tratava-se
da aula de inglês na rede pública no ensino fundamental
e médio e da participação em outros eventos
sociais, tais como workshops e palestras nos quais esse grupo
de alunas é convidado a participar com regularidade.
A partir da identificação dessas situações,
elencamos as suas características lingüísticas
(Hutchinson & Waters, 1987:12) e compusemos os diferentes
momentos do curso. Entendemos como características lingüísticas
as diferentes funções da linguagem que o professor
desempenha em suas diversas atividades profissionais.
3.2. Gênero
Outra
visão de linguagem, que fundamentou nosso trabalho foi
a teoria do gênero segundo uma abordagem sistêmico-funcional.
Eggins (1994) inicia sua discussão sobre o gênero
valendo-se da definição de Martin (1984 e 1985)
que explica gênero como um evento que tem um propósito
definido, orientado para um objetivo e organizado em estágios.
Tais estágios são chamados de estrutura esquemática
de um gênero (Eggins, 1994).
Nosso curso foi estruturado a partir da noção
de gênero como linguagem em uso, que tem forma e significado
específicos e deriva de funções, propósitos
e significados de situações sociais (Kress, 1985).
No caso, a situação social em foco no curso foi
a própria aula de inglês, e palestras e workshops
dos quais poderiam vir a participar.
Estas situações-alvo têm uma configuração
contextual (CC) que pode ser descrita como linguagem exercendo
alguma função em algum contexto. A configuração
contextual, de acordo com Hasan (1989:56), é utilizada
pelos usuários para fazer previsões sobre a estrutura
textual, e pressupõe o seguinte:
. Quais elementos devem ocorrer;
. Quais elementos podem ocorrer;
. Onde eles devem ocorrer;
. Onde eles podem ocorrer;
. Com que freqüência eles podem ocorrer.
A
partir da exploração de todas as possibilidades
de elementos opcionais e obrigatórios que possam ocorrer
num gênero, assim como a ordem em que eles ocorrem, fica
estabelecida a Estrutura Genérica Potencial (EGP) desse
gênero. A EGP de um gênero permite que um número
de estruturas possam ser realizadas, passando cada uma delas
a ser uma estrutura real.
Levando-se em consideração os eventos sociais
que um professor de língua inglesa deve poder participar
usando a língua alvo, analisamos quais seriam os elementos
obrigatórios, opcionais e recursivos que constituem cada
um desses eventos. A aula de inglês e os outros eventos
sociais dos quais o professor participa têm uma EGP a
partir da qual é possível caracterizar-se um gênero.
4. Descrição do curso
O
curso que desenvolvemos era composto de dois módulos
presenciais,. O curso foi realizado nas instalações
do ERIC (Educational Resources Information Center, organizado
pelo British Council) local e em salas de aula da universidade
que nos abrigou. Paralelamente, as alunas do curso descrito
aqui também participavam de outros dois cursos de dois
módulos cada, que seriam ministrados a distância:
o de compreensão escrita e o de compreensão oral.
As funções que compõem as diferentes situações
sociais priorizadas em cada um dos módulos de produção
oral foram as seguintes:
Módulo
I:
. Cumprimentar/ Despedir-se
. Apresentar-se
. Demonstrar interesse
. Apresentar os objetivos do curso/da aula
. Dar instruções
. Fazer apresentações nas quais se descreve
os alunos e a sua escola
. Debater/argumentar: princípios
. Dar conselhos
Módulo
II:
.
Expressar planos
. Debater/argumentar: desenvolvimento
. Promover discussões e debates
. Ser polido em sala de aula
. Apresentar desculpas (aspectos culturais das desculpas)
. Dar recados
. Selecionar e relatar sobre materiais de ensino
. Solicitar feedback dos alunos
. Dar micro-aulas
A tabela abaixo mostra como categorizamos os elementos presentes em cada um dos eventos sociais focais do curso:
Função |
Aula
de Inglês na rede pública |
Workshops
|
Palestras (ouvinte) |
Cumprimentar
/ Despedir-se |
O
|
O
|
Op |
Apresentar-se |
O
|
O
|
Op |
Demonstrar
interesse |
O
|
O
/ R |
O |
Apresentar
os objetivos do curso/da aula |
O
|
Op
|
- |
Dar
instruções |
O
/ R |
- |
- |
Fazer
apresentações nas quais se descreve os alunos
e a sua escola |
Op |
Op |
- |
Debater/argumentar |
Op
|
O / R |
O |
Dar
conselhos |
O
|
Op
|
- |
Expressar
planos |
Op |
Op |
- |
Promover
discussões e debates |
O
|
Op |
- |
Ser
polido |
O
/ R |
O |
O |
Apresentar
desculpas (aspectos culturais das desculpas) |
O
|
Op
|
- |
Dar
recados |
O
|
Op
|
- |
Selecionar
e relatar sobre materiais de ensino |
- |
O |
- |
Solicitar
feedback dos alunos |
O |
- |
- |
Dar
micro-aulas |
- |
Op |
- |
Legenda: O = Obrigatório Op = Opcional R = Recursivo
Quadro 1: Funções da linguagem presentes nos eventos sociais dos quais as professoras-alunas participam profissionalmente.
Após a definição do conteúdo do curso, desenvolvemos o planejamento de cada um dos encontros: as funções a serem trabalhadas, o conteúdo lingüístico que as professoras-alunas precisariam para desempenhar cada uma das atividades, os tópicos dos encontros e o material que seria necessário em cada etapa.
Como exemplo, apresentamos o nosso plano de curso referente ao primeiro momento do primeiro encontro:
| Encontro |
1 |
| Situação social | Introducing yourself |
| Funções da situação social |
Greeting Saying my name Saying where I teach, what I like, what my special interests are, My latest achievements - things I am proud of (personal and professional life) |
| Foco lingüístico |
Different greeting expressions Simple Present (to be, live, like, etc) Adjectives to talk about one's personality |
| Tópico | Myself |
| Atividade/Material |
-
Video in which all EDULANG members introduce themselves. - Distribution of a list of different types of greetings and discussion of their level of politeness and adequacy to the classroom. - Warm up activity in which students get to know each other. - Recording of a video tape in which students introduce themselves to their teachers. |
Quadro 2: Exemplo de plano de curso
5. Implementação
5.1. Abordagem de sala de aula
No
momento do design do curso, tínhamos em mente privilegiar
uma abordagem que permitisse construir nossos encontros a partir
do conhecimento prévio das alunas e daí, através
da interação, tendo o professor como mediador,
partir para as diferentes práticas que permitissem que
ao final do encontro seu objetivo pudesse ser verificado.
Além disso, tínhamos como objetivo falar inglês
em todas as circunstâncias nos nossos encontros presenciais
e garantir que as professoras-alunas também só
usassem o inglês para falar entre si e conosco. Esse objetivo
também precisou ser negociado a princípio, pois,
para muitas professoras-alunas, a proposta de falar inglês
durante o nosso curso era um grande desafio.
Quanto às atividades, procuramos selecionar e elaborar
aquelas que proporcionassem o desenvolvimento da mediação
na construção do conhecimento e, portanto, a colaboração
mútua no aprendizado [professor<=>alunos, aluno(s)<=>aluno(s),
texto(s)<=>aluno(s), etc.].
Algumas das propostas foram:
-
atividades de vídeo acompanhadas de discussão
prévia e posterior;
- situações de debate em pequenos e grandes grupos;
- atividades interativas que dependiam de coleta / troca de
informação;
- apresentação de projetos desenvolvidos individualmente
ou em grupo a partir de dados que as professoras-alunas coletaram
em suas escolas.
No
módulo II, mantivemos a estratégia de criar oportunidades
que proporcionassem diferentes tipos interação.
Também utilizamos vídeos, fitas e situações
de sala de aula para desencadear discussões e oportunidades
de expressão oral. Devido ao perceptível desenvolvimento
da produção oral e do engajamento das professoras-alunas,
pudemos dedicar cada vez mais tempo a discussões abertas
sobre temas variados relacionados ao foco de cada aula, com
a turma inteira e em pequenos grupos. Como exemplos dessas discussões,
podemos citar o debate sobre o que cada professora fez na sua
sala de aula durante a semana anterior, as diferenças
entre a expressão de polidez em inglês e em português
etc.
Procurando atender aos anseios constantemente expressos pelas
professoras-alunas ao longo do curso, no módulo II, realizamos
a busca por materiais didáticos. Com isto estávamos
atendendo a dois objetivos simultaneamente: as professoras-alunas
tinham a oportunidade de buscar os materiais dos quais sentiam
necessidade, e, ao relatar suas descobertas para as colegas,
desenvolviam a habilidade de fazer apresentações
orais. Sugerimos que elas pesquisassem materiais didáticos
em sites e em livros do ERIC, onde os encontros presencias foram
conduzidos. As professoras-alunas percebiam a importância
de terem esta habilidade, pois após fazerem suas apresentações,
sentiam-se mais seguras diante de um público, pelo menos,
diante das colegas.
Como no primeiro módulo, havíamos percebido que
as alunas tinham a tendência de se apoiarem em materiais
escritos, previamente preparados por elas, para fazerem suas
apresentações orais, optamos por criar espaços
em sala de aula para as professoras-alunas prepararem suas apresentações.
Quando as tarefas eram preparadas em sala, com orientações
de que as alunas só poderiam escrever palavras-chave
em suas folhas de papel ou transparências, elas não
tinham a oportunidade de redigir seus textos e acabavam tendo
que falar livremente. Essa estratégia se mostrou bastante
eficiente.
Quanto ao uso exclusivo de inglês nos nossos encontros,
este foi um hábito desenvolvido ao longo do módulo
I, e foi consolidado desde a primeira aula do segundo módulo.
O uso do inglês pelas alunas passou a ser espontâneo
e ocorria desde os cumprimentos iniciais até a despedida.
Outro aspecto a salientar é o fato das respostas às
atividades de reflexão sobre a aprendizagem, antes escritas
em português, começaram a vir espontaneamente escritas
em inglês, sem que a professora do módulo II tivesse
solicitado. A mudança de postura neste sentido foi bastante
evidente.
5.2. Refletindo sobre necessidades lingüísticas
Baseadas na afirmação de Hutchinson & Waters
(1987), de que "o que distingue cursos de inglês
para fins específicos de cursos de inglês geral
não é a existência de uma necessidade como
tal, mas uma consciência da necessidade" , conduzimos
duas atividades através das quais pensamos poder obter
informações sobre o quão conscientes as
professoras-alunas estavam no que diz respeito às suas
necessidades lingüísticas em sala de aula. A primeira
atividade proposta a esse respeito no primeiro encontro pedia
que, em grupos, as professoras-alunas informassem onde usavam
inglês, com quem, de que modo (falado, escrito, lido,
compreendido) e com que freqüência. As professoras-alunas
mencionaram a sala de aula e os alunos como local de interlocução
e interlocutores respectivamente.
No segundo encontro, expandimos esta discussão sobre
necessidades, lacunas e desejos lingüísticos (needs,
lacks and wants, segundo Hutchinson e Waters). Observamos que
as professoras-alunas não identificavam as necessidades
lingüísticas para exercer a sua profissão.
As necessidades que levantaram inicialmente foram: como trabalhar
com vídeo em sala de aula, como dar aula com música,
entre outras semelhantes. Enfim, o que mencionavam inicialmente
resumia-se a necessidades de ordem metodológica e não
lingüística.
Sendo assim, consideramos necessário intervir a fim de
mediar o levantamento também das necessidades do uso
da língua inglesa em sala de aula pelo professor da rede
pública. Ao final dessa discussão, tínhamos
uma lista de necessidades mais completa, com a qual trabalharíamos
nos encontros seguintes.
Ao
longo do curso, constantemente retomávamos a necessidade
de instrumentalizar o professor a efetivamente usar da língua
inglesa em sala de aula e em outros eventos sociais, para que
as professoras-alunas não vissem como prioritárias
apenas as questões metodológicas e de materiais.
Não queríamos que elas se limitassem a descobrir
bons materiais, ou boas atividades e dinâmicas a serem
adotadas em suas salas de aula, mas que também descobrissem
a importância do uso a linguagem e o percebessem como
necessidade.
No final do segundo módulo, apesar das professoras-alunas
ainda terem se mantido muito interessadas em aprender estratégias
metodológicas, que foi sua necessidade manifestada desde
o início do curso, elas já se referiam à
necessidade de língua para seu desenvolvimento pessoal
e profissional. Alguns relatos registraram a percepção
da importância do uso do inglês em sala de aula
como um fator motivador para seus alunos. Algumas professoras-alunas
observaram que, ao falar inglês na sua sala de aula, os
alunos ficavam mais atentos, diminuindo problemas de disciplina
em sala de aula.
6. Resultados
Ao final do primeiro módulo, a avaliação quantitativa que obtivemos a partir de um questionário de avaliação do curso foi a seguinte:
De forma geral o curso correspondeu ou superou as expectativas, conforme mostra a tabela abaixo:
Módulo
I |
Módulo
II |
||
| Superou
expectativas |
Correspondeu
às expectativas |
Superou expectativas | Correspondeu às expectativas |
| Turma
A: 44% Turma B: 57% |
Turma
A: 56% Turma B: 43% |
67% | 33% |
Quadro 3: Correspondência do curso às expectativas das professoras-alunas
Quanto à aplicação dos conceitos desenvolvidos no curso em seu trabalho, as professoras-alunas também tenderam a considerar o curso aplicável, conforme mostra a tabela abaixo:
Módulo
I |
Módulo
II |
||||
| Imediatamente
aplicável |
Parcialmente
aplicável |
Aplicável a longo prazo | Imediatamente aplicável | Parcialmente
aplicável |
Aplicável a longo prazo |
| Turma
A: 70% Turma B: 86% |
Turma
A: 6% Turma B: 14% |
Turma
A: 24% |
75% | - | 25% |
Quadro 4: Avaliação sobre aplicabilidade do curso
Os
conteúdos abordados foram considerados adequados aos
objetivos do curso por 100% das professoras-alunas nos módulos
I e II. 90% delas consideraram a exposição da
professora excelente e 10% avaliaram-na como clara/adequada
no módulo I. No módulo II, 100% das professoras-alunas
consideraram a exposição da professora excelente.
Quanto à implementação dos dois módulos,
foi gratificante saber que o conteúdo programado foi
percebido como relevante e pôde ser cumprido, que as professoras-alunas
percebem a aplicabilidade imediata na sua atuação
em sala de aula e que houve reflexões críticas
sobre o uso de inglês em sala de aula e a prática
pedagógica. É claro que não sabemos de
fato o que ocorre nas salas de aula das professoras-alunas atualmente,
pois este não era o objetivo do curso. Os relatos delas
demonstraram que quem concluiu o curso estava melhor instrumentalizado
a dar aulas em inglês se assim o desejasse e muitas professoras-alunas
relataram estar experimentando.
Pode-se notar que, apesar de não termos enfocado os desejos
manifestos pelas professoras-alunas no início do primeiro
módulo, o de se aprimorarem metodologicamente, a maioria
percebeu uma mudança na sua atuação profissional.
Isso mostrou que, de fato, o desenvolvimento da habilidade lingüística
também é uma necessidade do professor de inglês.
Seguem, abaixo, alguns dos depoimentos das alunas, apresentados por escrito, ao final do módulo I:
"Eu tenho me sentido mais segura na sala de aula, depois do curso."
"Antes de iniciar este curso, trabalhava com interpretação de textos, eu exigia que meus alunos soubessem toda a tradução. Hoje eu tenho uma outra visão: Basta o entendimento geral."
"Agora eu falo mais inglês, observo no curso frases como: It's all. Any question. Atention for me, please. Be quiet, please. E muito mais, isso percebi que eles interessaram mais na aula, presta mais atenção."
"É maravilhoso você sair daqui com algo novo na "bagagem". Até hoje, em outros momentos, eu sempre saía com a sensação de que não havia aprendido nada; aqui está sendo diferente, e isso tem me ajudado no meu trabalho, me sinto mais segura na sala de aula."
"Através das "expressões", aprendi a "brincar" com eles fazendo com que gostem de falar inglês. Exemplo: quando fui ensinar passado dos verbos regulares, não fui direto na gramática, através de um texto, e da vivência dos meus alunos, consegui passar o conteúdo para eles sem impor regras de gramática, como a professora me ensinou. Foi muito mais agradável do que era antes. "
Esses
comentários nos mostram que as alunas se sentem mais
seguras, que o curso parece ter provocado uma reflexão
crítica sobre a sua maneira de trabalhar, que elas afirmam
estarem experimentando falar inglês em sala de aula, que
se sentiram prestigiadas pelo curso e que estão percebendo
seus alunos mais motivados – conseqüentemente, elas
também estão mais motivadas.
Ao final do módulo II, obtivemos comentários que
reforçam os anteriores e que mostram que o uso da língua
também havia passado a ser uma necessidade do nosso grupo
de professoras-alunas. A seguir, apresentamos alguns comentários
feitos por elas ao final do módulo II. Perguntamos o
que as professoras-alunas percebiam estarem fazendo bem em inglês,
com o que ainda percebiam ter problemas e como pretendiam resolvê-los.
As respostas à primeira pergunta nos mostram que as professoras-alunas
já entendiam a linguagem como algo funcional –
não mais mencionando somente gramática, e, sim,
que evento social estavam realizando através da linguagem.
Nota-se que as professoras-alunas, nesta fase do curso, escreviam
espontaneamente sua reflexões em inglês:
"I am improving my English in each meeting: I am speaking, listening, reading and writing well. I can be polite, use more English in the classroom with my students, greetings, introduce myself, personal informations."
"To be in front of students and to explain the subject just in English during the classes; to link sentences with some English expressions, to make presentations, to describe people, to say, everytime, the magic words because is an English situation, to introduce myself, to say degree of certainty, to say hello and see you next time."
"I'm
preparing my classes better, I'm using more English in
class and I'm thinking about ideas (different) to work
with the learners. I'm understanding better how to present
a class, to prepare a search, etc."
"I am comunication better with my colleagues, and students.
I was shy, now I speak with more easily."
"I'm speaking more in English. For example: I have used much more speeches like: apresentations, giving information, explanation of the exercises, etc. Everything in English."
Somente uma das alunas mencionou aspectos léxico-gramaticais entre o que aprendeu, mas essa aluna também teve um número excessivo de faltas para ser aprovada no curso. Vejamos o que ela respondeu à questão colocada acima:
"News phrases and participation the dialogue with my friends and students, use news introductions in my vocabulary."
Aparentemente,
essa professora-aluna entende que o que aprendeu foi vocabulário
e gramática. As outras professoras-alunas descreveram
aspectos funcionais e questões pessoais e pedagógicas
que acabaram sendo conseqüência do curso. Este curso
parece tê-las feito repensar sua prática pedagógica,
além de instrumentalizá-las a fazer um uso mais
coerente do inglês em sala de aula. Algumas professoras-alunas
afirmam terem perdido parte da sua timidez com o curso.
Em resumo, o que podemos perceber em termos de resultado do
curso pela ótica das alunas, segundo seus próprios
relatos, foi o seguinte:
Ótica
das professoras-alunas:
- começaram a falar inglês nas suas próprias
salas de aula;
- sentiram-se prestigiadas por estarem recebendo um curso de
qualidade que atendesse aos seus objetivos;
- afirmam ter mudado de atitude em sala de aula: algumas observaram
que tratar bem o aluno pode ter resultados muito benéficos;
- aproveitaram várias das nossas idéias para utilizar
em suas próprias salas de aula;
- descobriram fontes de consulta de materiais em livros do ERIC
e na Internet, o que lhes facilitará a elaboração
de aulas e de materiais próprios, o que já era
um de seus desejos ao iniciarem o curso;
- houve uma visível ampliação da auto-estima
das alunas e todas afirmam terem mudado algumas das maneiras
de proceder em sala de aula;
- a grande maioria afirma estar mais segura diante das suas
turmas;
- todas afirmam que estão mais à vontade e menos
tímidas para falar inglês;
Pela ótica dos professores que ministraram o curso presencial, observamos o seguinte:
-
alunas que evitavam falar inglês pelos mais diferentes
motivos nas suas próprias aulas ou no nosso curso passaram
a falar inglês com naturalidade durante todas as aulas
presenciais;
- as alunas estão menos tímidas;
- alunas que não falavam nada começaram a falar;
- alunas que não construíam frases começaram
a construir;
- alunas mais fluentes aprenderam a se expressar com mais desenvoltura
ao fazer apresentações e participarem de debates;
- todas aproveitavam todas as oportunidades que tinham para
terem idéias pedagógicas que nem imaginávamos
estar oferecendo;
- os cursos a distância de leitura (e, posteriormente,
de compreensão oral) parecem intervir positivamente no
desempenho oral das professoras-alunas.
- deixamos de observar reclamações de que não
é possível fazer isso ou aquilo na escola pública.
Acreditamos que o êxito observado entre as professoras-alunas
que freqüentaram o curso residiu tanto na reflexão
sobre a necessidade de usar a língua inglesa em sala
de aula, quanto na percepção que as professoras
tinham de que os gêneros que estavam desenvolvendo eram
úteis para o exercício da sua profissão
e para si mesmas.
No entanto, apesar das reflexões positivas apresentadas
acima, chamou-nos a atenção a quantidade de professoras-alunas
que desistiram do curso.
Nossos números de freqüência foram
os seguintes:
Módulo
I |
Módulo
II |
||
| Interessados | 60 | Esperados | 24 |
| Confirmados, distribuídos em duas turmas (A e B) | 42 | Compareceram pelo menos 1 vez ao curso | 20 |
| Aprovados ao término do módulo | 24 | Aprovados
ao término do módulo |
16 |
Quadro 5: Quantidade de alunos interessados, de alunos que freqüentaram o curso e que o concluíram.
Os motivos que as professoras-alunas (ou suas colegas) apresentaram para terem abandonado o curso foram os seguintes:
-
sobrecarga de atividades (já trabalhavam muito em suas
escolas e não foi possível conciliar com o curso);
- dificuldades lingüísticas (consideraram o curso
difícil);
- dificuldade de conciliar o módulo presencial e os módulos
a distância que exigiam tempo extra para familiarização
com a nova ferramenta computacional e para o cumprimento das
tarefas;
- dificuldade para pagar as contas telefônicas e de provedor
ao fazer um curso a distância;
- transferência de distrito/município no início
o ano letivo, o que tornava difícil a locomoção
para o local das aulas presenciais;
- casamento, nascimento de filho, maridos que não entendiam
com clareza qual era o papel do curso no desenvolvimento profissional
de suas esposas.
Por
todas as razões citadas acima, tem-se a impressão
de que grande parte do professorado da rede pública tem
dificuldade para engajar-se em atividades continuadas. Sua rotina,
em geral, já é bastante sobrecarregada e parece
ser mais fácil participar de encontros, palestras de
curta duração do que se envolver em um curso mais
longo de três partes de dois módulos cada, sendo
que duas delas oferecidas a distância, com duração
total de um ano.
Mesmo com o alto índice de evasão nessa nossa
primeira experiência, podemos concluir que, ao término
dos dois módulos, as alunas que permaneceram e foram
aprovadas estiveram muito engajadas, entenderam a proposta do
curso e este certamente fez com que as professoras-alunas refletissem
criticamente a respeito de suas vidas profissionais e de suas
salas de aula, conforme veremos na discussão a seguir.
Daí considerarmos que vale a pena oferecermos cursos
mais extensos do que os cursos comumente oferecidos para a rede
pública, que duram uma tarde ou uma semana. Cursos mais
longos podem ter uma contribuição mais reflexiva
e enriquecedora para os participantes que estão decididos
a encarar um novo desafio.
7. Considerações Finais
Após
60 horas de curso através dos 10 encontros presenciais,
acreditamos ter proporcionado oportunidades para que os professores
de inglês da rede pública refletissem a respeito
do uso da língua inglesa na sua sala de aula ou em eventos
sociais pedagógicos que ele venha a participar.
Pudemos verificar um desenvolvimento expressivo da capacidade
de produção oral de todas as professoras-alunas
nas nossas aulas, por mais variado que fosse o seu nível
de proficiência em inglês oral e o grau de desenvolvimento.
Tal evolução foi melhor percebida no Módulo
II, quando os módulos de leitura e compreensão
oral a distância, via Internet, já estavam em andamento.
Acreditamos que estes módulos exerceram um papel fundamental
contribuindo com input de conteúdo e língua que
melhor instrumentalizaram as professoras-alunas a participar
dos módulos de produção oral.
Embora o objetivo do curso não fosse verificar se estas
professoras-alunas implementaram o conteúdo do curso
nas suas salas de aula e nos eventos pedagógicos de que
freqüentam, tivemos alguns depoimentos de que elas começaram
a fazê-lo.
Precisamos ter em mente que, apesar do curso ser instrumental,
não poderíamos esperar que as professoras-alunas
passassem a ministrar aulas totalmente em inglês após
somente 60 horas de curso. É preciso lembrar que estas
professoras-alunas trabalham em um contexto profissional no
qual não estão acostumadas a usar o inglês
para interagir com seus alunos em sala de aula. O inglês
é normalmente visto como o conteúdo da aula e
não meio de interação. Desta forma, uma
das grandes contribuições do nosso curso foi o
fato de que as professoras-alunas perceberam que são
capazes e podem usar a língua inglesa para interagir
em sala de aula e obter resultados otimistas e imediatos.
Consideramos pertinente salientar que o curso em questão
possibilitou às professoras-alunas desenvolvenrem-se
na língua inglesa. Elas certamente estão melhor
instrumentalizadas a dar aulas em inglês, porém,
a escolha de fazer uso dos recursos disponíveis e continuar
o processo de desenvolvimento ainda é de cada uma delas.
Referências bibliográficas:
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