

ABSTRACT
This article aims at, firstly, outlining a historical view
of the Applied Linguistics since the 40´s. After this,
important events for the evolution and the deepening of the
studies in the Applied Linguistics area will be presented. Finally,
the need for the applied linguist to be a political agent will
be discussed.
KEY-WORDS
Applied Linguistics; language; applied linguist; political
agent
RESUMO
Este artigo objetiva, inicialmente, traçar um panorama
histórico da Lingüística Aplicada desde a
década de 40. A seguir, eventos marcantes para a evolução
e aprofundamento dos estudos da Lingüística Aplicada
serão destacados. Finalmente, será discutida a
necessidade do lingüista aplicado envolver-se como um ativista
político.
PALAVRAS-CHAVE
Lingüística Aplicada; linguagem; lingüista
aplicado; ativista político
INTRODUÇÃO
O
objetivo deste artigo é, inicialmente, levantar alguns
aspectos teóricos sobre a história da Lingüística
Aplicada, doravante, LA, nas décadas de 70, 80 e 90.
Neste período histórico será destacada
a ampliação da área de interesse dos estudos
dos lingüistas aplicados. A seguir, será apresentado
o papel dos movimentos de apropriação sucessiva
e variada da LA tanto da Lingüística, quanto de
outras áreas. Finalmente, a expansão das fronteiras
da LA será salientada com um foco na construção
da identidade do lingüista aplicado como um ativista político.
A LA E UM POUCO DA SUA HISTÓRIA
Nesta seção serão discutidas as características da LA nas décadas de 70, 80 e 90. Ao longo desse período serão destacados as associações, as publicações e a ampliação da área de interesse dos estudos dos lingüistas aplicados.
O termo LA surge, em 1940. Poucos anos depois, em 1946, de acordo com Bohn e Vandresen (1988), a LA já figurava no elenco de disciplinas da Universidade de Michigan. Em 1948, há a fundação e publicação do primeiro número do Journal of Language Learning: A Journal of Applied Linguistics responsável pela divulgação de pesquisas na área de LA.
De acordo com Grabe (2002), na década de 50 há dois marcos relacionados aos estudos da LA: em 1956, a abertura da Escola de Lingüística Aplicada na Universidade de Edinburgo e, em 1959, a criação do Centro de Lingüística Aplicada nos Estados Unidos.
Nessa época, o lingüista aplicado poderia ser chamado de aplicador de saberes, pois segundo Grabe (2002), o termo LA comumente refletia insights de lingüistas com abordagens estruturais e funcionais que poderiam ser diretamente aplicados ao ensino de uma segunda língua e da língua materna. A influência do paradigma estrutural que privilegiava o sincrônico sobre o diacrônico, as relações estruturais internas sobre as externas, e adotava uma dicotomia entre o indivíduo e a sociedade afetou a LA nesse momento histórico.
Em grande parte do século XX, o predomínio dessas distinções, principalmente, no modo de pensar a linguagem e a aquisição de língua, resultou no desvinculamento dos estudos do lingüista aplicado das questões históricas, sociais, culturais ou políticas, pois, segundo Grabe (2002), a dicotomização entre o indivíduo com o que o cerca deixou de reconhecer que as relações de poder eram advindas tanto da cultura, quanto da forma de ensino-aprendizagem, por exemplo. Essa visão da LA deixava de lado a concepção de linguagem na qual a língua é um sistema de significação de idéias que desempenha um papel central no modo como o homem concebe o mundo e a si mesmo.
Procurando ampliar seus estudos, os lingüistas aplicados uniram-se na década de 60 para estabelecer novos pólos de estudo da LA. Em 1964, houve a fundação da Associação Internacional de Lingüística Aplicada (AILA). Em 1966, da Associação Britânica de Lingüística Aplicada (BAAL) e em 1967, do TESOL Quartely. No Brasil, nesse período, ocorreu, no dia primeiro de março de 1966, a primeira institucionalização da Lingüística Aplicada com o estabelecimento do Centro de Lingüística Aplicada Yásigi, em São Paulo, por recomendação do Programa Interamericano de Lingüística y Ensenãnza de Idiomas. Nessa época, o termo LA continuava a ser associado à aplicação dos insights dos lingüistas ao ensino de línguas e a assuntos práticos sobre línguas.
No entanto, nesse mesmo período, o lingüista aplicado envolveu-se em assuntos relacionados à avaliação, às políticas educacionais e a um novo campo da aquisição de uma segunda língua, que focalizava mais a aprendizagem do que o ensino. Pôde-se observar o aparecimento do interesse da LA por estudos a respeito do ensino de segunda língua e uma expansão para outros campos do uso da língua.
Mais adiante, em 1970, há a chegada formal da LA em solo brasileiro. É fundado no Brasil, na PUC-SP, o primeiro programa de Pós-Graduação stricto-sensu em Lingüística Aplicada. Em 1971, o Programa de Estudos Pós-Graduados em Lingüística Aplicada ao Ensino de Línguas (LAEL) é reconhecido como centro de excelência pelo CNPq, e em 1973, o mesmo é credenciado pelo Conselho Federal de Educação.
Nesse
momento histórico, Rojo (1999), Kleiman (1991,1992,1998)
e Celani (1998, 1992) ressaltam que a LA ainda estava numa situação
de dependência da Lingüística pelo fato de
que os lingüistas propriamente aplicados terem sido precedidos
historicamente por lingüistas com uma vocação
para as aplicações, que utilizavam seus saberes,
suas descobertas, sua formação, seus resultados
em práticas e contextos sociais, predominantemente, em
questões práticas de ensino.
Segundo as autoras acima citadas, a LA era, portanto, entendida
como uma aplicação de sucessivas teorias ao estudo
de contextos de uso, um mero consumo e aplicação
dos estudos lingüísticos ao ensino/aprendizagem
de línguas estrangeiras e materna, ocupando uma posição
subserviente, sem foro próprio para o desenvolvimento
de pesquisa e de teorização.
Para Rojo (1999), nessa época, o lingüista aplicado parecia impassível às suas sólidas crenças nos princípios básicos do positivismo e do estruturalismo, que acarretam uma fé persistente em uma visão de linguagem a-política e a-histórica; em uma divisão clara entre o sujeito e o objeto e, portanto, na noção de objetividade; no pensamento e na experiência como sendo anteriores à linguagem; no desenvolvimento de modelos e de métodos fiéis aos princípios do cientista e na testagem subseqüente da validade de tais modelos por meios estatísticos; na crença do processo cumulativo como um resultado do acréscimo gradual do conhecimento novo; e na aplicabilidade universal do princípio da racionalidade e da verdade.
Na década de 80, entretanto, as fronteiras da LA começaram a se expandir. Essa expansão foi registrada pelos extensivos trabalhos publicados ao longo dos dez primeiros anos do Journal of Applied Linguistics e do Annual Review of Applied Linguistics (ARAL), fundado em 1980. Segundo Grabe (2002), o foco central da LA nesse período estava relacionado a acessar questões e problemas de linguagem à medida em que eles ocorriam no mundo real.
As definições de LA nessa época enfatizavam tanto a variedade de assuntos abordados, quanto os tipos de fontes disciplinares usados para trabalhar os problemas de linguagem. Com esse foco de pesquisa, o lingüista aplicado ampliou seus estudos para além das fronteiras do ensino e aprendizagem de línguas e passou a englobar questões de política e planejamento educacional; uso da linguagem em contextos profissionais; tradução; lexicografia; multilingualismo; linguagem e tecnologia; e corpus lingüístico.
Nessa época, no Brasil, Kleiman (1992) ressalta que as teses e artigos que focalizavam a análise da linguagem, seja esta nas redações dos alunos, ou na linguagem utilizada nos livros didáticos, passaram a investigar o processo de produção da linguagem. Segundo a autora, do exame do produto (i.e., a redação), passou-se para a investigação do processo (interlínguas e gramáticas intermediárias em LE; emergência de processos de construção da escrita em língua materna).
É nesse contexto que a importação das teorias deslocou-se da ciência-mãe – a Lingüística – para outras áreas das Ciências Humanas. A LA passou a querer ser interdisciplinar. A Psicologia (em geral Cognitiva) e a Psicolingüística (do Processamento; da Aquisição) passaram a fornecer as bases antes buscadas exclusivamente na Lingüística.
Campos tão diversos como a Sociologia, a Antropologia, a Etnografia, a Sociolingüística, a Estética e a Estilística, a Teoria da Literatura, também passaram a ser invocados. Neste procedimento de empréstimos a LA é vista, conforme Celani (1998) explica, como articuladora de múltiplos domínios do saber, em diálogo constante com vários campos do conhecimento que têm preocupação com a linguagem.
Rojo (1999) ressalta que os feitos epistemológicos desses movimentos de apropriação sucessiva e variada de outras áreas foram visíveis. Se por um lado, os diversos fundamentos – psicológicos, psicolingüísticos, sociológicos e lingüísticos – adotados pelos pesquisadores no campo nas últimas décadas tornaram possível falar de sucessivas noções de sujeito (biológico, psicológico, social, histórico) subjacentes às investigações. Por outro lado, a noção de historicidade (do objeto, do sujeito) não pode ser colocada senão recentemente, quando da emergência de pesquisas de fundamento discursivo e sócio-histórico.
Com essa preocupação discursiva e sócio-histórica em mente, o lingüista aplicado iniciou a década de 90 que será discutida na próxima seção.
O LINGUISTA APLICADO E SEUS PASSOS PARA O NOVO MILÊNIO
Após um levantamento histórico a partir da década de 40, esta seção objetiva traçar um perfil das preocupações do lingüista aplicado no final do século passado. Será destacada a importância do lingüista aplicado ter iniciado o aprofundamento dos estudos com bases culturais e ideológicas do trabalho do ser humano e de sua vida.
No Brasil, vinte anos após a criação do LAEL, a Associação de Lingüística Aplicada do Brasil (ALAB) foi formalmente criada em 1990 . De acordo com Rojo (1999), na década de 90, a diversificação de enfoques, temas, objetos decorrente de teorias, descrições e metodologias, contribuiu para se colocar a discussão da identidade da área de LA como um todo e para se aprofundar as discussões sobre o seu caráter inter e/ou transdisciplinar.
O foco das pesquisas do lingüista aplicado passou a ser a presença de problemas com relevância social suficiente para exigir respostas teóricas que trouxessem benefícios sociais a seus participantes. Como ressalta Pennycook (1998:23-25), tornou-se importante compreender o sujeito como múltiplo, contraditório e construído dentro dos diferentes discursos. Os lingüistas aplicados passaram a ter a necessidade de olhar as relações de poder na formação do sujeito na linguagem e por meio dela.
Esse estudo das relações de poder fez-se necessária, pois de acordo com Fairclough (1989), o estudo crítico da linguagem pode revelar os processos pelos quais a linguagem funciona para manter e/ou mudar as relações de poder na sociedade. Foi preciso corrigir a difundida minimização da importância da linguagem na produção, manutenção e mudança das relações sociais de poder. O lingüista aplicado pode auxiliar o ser humano a conscientizar-se sobre o modo como a linguagem contribui para o domínio de algumas pessoas sobre as outras.
Analisando o modo como o poder e a ideologia estão inscritos no discurso, pode-se chegar à conscientização crítica do discurso que se preocupa com a maneira como a língua reflete e constrói a desigualdade social. Como ressaltam Simon e Dippo (1986), o olhar crítico sobre a linguagem, possibilita que seja enxergado de quem são os interesses contemplados pelos trabalhos produzidos. Essa conscientização é o primeiro passo em direção à emancipação.
Qualquer produção de conhecimento gerada pelo lingüista aplicado deve, portanto, responsabilizar-se por um projeto político-pedagógico que busque transformar uma sociedade desigualmente estruturada. Segundo Pennycook (1998:24), essas desigualdades sociais ficaram latentes na década de 90, que foi marcada pela presença de iniqüidades construídas a partir das diferenças de gênero, raça, etnia, classe, idade, preferência sexual e outras distinções que conduziram às desigualdades opressoras.
Phillipsone & Skutnabb-Kangas (1986) lembram que dentro de um mundo marcado pela prosperidade compartilhada de forma desigual, pelo desperdício, pela injustiça, pela fome e pela doença, o papel dos lingüistas aplicados precisou ser o de investigar as vias pelas quais seus trabalhos favoreciam as formas cada vez mais sofisticadas de coerção física, social e, acima de tudo, ideológica. Para compreender tais diferenças, o lingüista aplicado precisou considerar as bases culturais e ideológicas do trabalho do ser humano e de sua vida, numa tentativa de compreender como essas bases podiam perpetuar ou transformar as grandes diferenças.
As sociedades são desigualmente estruturadas e são dominadas por culturas e ideologias hegemônicas que limitam as oportunidades do ser humano refletir sobre o mundo e, conseqüentemente, sobre as possibilidades de mudar esse mundo. Assim, a LA passou a examinar a base ideológica do conhecimento produzido. Um dos maiores problemas na LA, nesse momento histórico foi superar a escassez de "explorar o caráter político da educação" (Pennycook, 1998: 25).
Moita Lopes (1996) sintetiza esse momento histórico explicando que a LA passou a ser uma área de investigação aplicada, mediadora, centrada na resolução de problemas de uso da linguagem, que tinha um foco na linguagem de natureza processual, e que colaborava com o avanço do conhecimento teórico, pois as pesquisas em LA além de operarem com conhecimento advindo de várias disciplinas, também formulavam seus próprios modelos teóricos, colaborando não somente no seu campo de ação, como também em outras áreas de pesquisa.
Segundo esse autor, a LA englobou áreas de pesquisa que se centraram primordialmente na resolução de problemas de uso da linguagem pelos participantes do discurso no contexto social. Além disso, a LA focalizava a linguagem do ponto de vista dos procedimentos de interpretação e produção lingüística que definiam o ato da interação lingüística escrita e oral.
Dentro dessa perspectiva, Grabe (2002) descreve a expansão do campo do lingüista aplicado e a maior especificação de seu papel como um agente que passou a se preocupar com problemas que trouxeram para seu domínio questões sobre aquisição de segunda língua, alfabetização, direitos de minoria em relação ao seu uso da língua materna, e formação de professores.
Além disso, nos últimos anos da década de 90, pôde-se ver, segundo Grabe (2002), que as pesquisas da LA sobre ensino-aprendizagem de línguas e educação de professores começaram a enfatizar as noções de conscientização lingüística; a forma da aprendizagem de línguas; a aprendizagem a partir de interações dialógicas; os padrões para a interação professor-aluno; a aprendizagem baseada no contexto e o professor como pesquisador através da pesquisa-ação.
Passou-se a ter um foco em discussões sobre o papel de estudos críticos, termo que abrange conscientização crítica, análise do discurso crítica, pedagogia crítica, direitos dos alunos e práticas de avaliação crítica. Os estudos passaram a salientar como a linguagem age como um mecanismo bloqueador para aqueles que não estão cientes das expectativas e regras do discurso apropriado.
Houve, igualmente, maior interesse na análise descritiva da linguagem em contextos reais e no estudo do multilingualismo e das interações na escola, na comunidade, em contextos profissionais e em assuntos políticos no nível regional e nacional.
Após adquirir uma postura que buscava produzir benefícios sociais com sua pesquisa, o lingüista aplicado busca novos horizontes que serão explicados na próxima seção.
OS PRIMEIROS ANOS DO NOVO MILÊNIO: O LINGÜÍSTA APLICADO VISTO COMO UM PEDAGOGO CRÍTICO
No final da década de 90, de acordo com Celani (1998), a LA possuía uma autonomia organizacional na qual o lingüista aplicado procurava uma redefinição sempre nova, a partir de uma interpretação multidisciplinar, para cada conjunto de problemas relacionados à linguagem. Por estarem diretamente empenhados na solução de problemas humanos que derivavam dos vários usos da linguagem, os lingüistas aplicados viram-se envolvidos em trabalhos com uma dimensão essencialmente dinâmica que buscava a transformação do contexto de estudo.
Nessa busca, Pennycook (1998:48-49) ressalta que foi preciso investigar as circunstâncias específicas que levaram aos conceitos atuais e perceber que, ao se adotar uma concepção de discurso como um conjunto de sinais e práticas que organizam a existência e a (re)produção sociais, pode-se conceber a linguagem como fundamental para mudar a maneira como o ser humano vive e compreende o mundo e a si mesmo.
Com esta preocupação em mente, Kaplan (2002 a e b) salienta que a linguagem não poderia ser vista como um sistema independente, mas sim como um produto humano e como uma ferramenta social; portanto, inseparável do homem, de sua subjetividade, orientação de valores, emoção e sistema cultural. Assim, no final da década de 90, o lingüista aplicado começa a assumir seu lado crítico do estudo da linguagem.
Vê-se que no início do novo milênio, o lingüista aplicado está mais crítico e sensível às preocupações sociais, culturais e políticas. Nesse sentido, ele pode ser considerado um pedagogo crítico que, segundo Rajagopalan (2003:106) é "um ativista, um militante , movido por certo idealismo e convicção inabalável de que, a partir da sua ação, por mais limitada e localizada que ela possa ser, seja possível desencadear mudanças sociais de grande envergadura e conseqüência". Isso significa dizer que os lingüistas aplicados começam a assumir posturas morais, políticas e críticas a fim de tentar melhorar e mudar um mundo estruturado na desigualdade.
Nessa tentativa de propiciar mudanças, Rojo (1999) ressalta que o lingüista aplicado passa a enfocar problemas concretos de conflito comunicativo e interpretá-los de maneira a contribuir para uma reflexão sobre as novas possibilidades de melhoria da qualidade de vida das pessoas.
Esse desenvolvimento é possível, pois segundo Pennycook (1998), os lingüistas aplicados auxiliam o ser humano a perceber-se dentro de um conjunto de relações de poder que são globais em sua essência. Tal descoberta permite que o homem entenda-se como um intelectual situado em lugares sociais, culturais e históricos bem específicos, como também compreenda o caráter político e a base ideológica dos conhecimentos que produz, que são sempre vinculados a interesses diversos.
Vê-se
que os trabalhos de LA do início do novo milênio
buscam compreender as implicações políticas
da prática, pois o que é feito não é
a-político e a-histórico. O lingüista aplicado
vê a necessidade de explorar como o uso da linguagem é
historicamente construído em torno de questões
de poder para evitar o desenvolvimento de uma prática
de ensino que tem mais a ver com acomodação do
que com acesso ao poder, e privilegiar uma prática de
um lingüista aplicado que busca criar possibilidades de
mudanças sociais.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
No panorama traçado da LA desde 1940, percebe-se que o lingüista aplicado fundou associações, formalizou formas de publicação para a divulgação de seus estudos e expandiu seus interesses ao longo dos anos. Inicialmente, como um aplicador de saberes, buscou aplicar os insights dos lingüistas ao ensino de língua estrangeira e materna. Preocupado com o desvinculamento dos estudos da lingüística aplicada das questões históricas, sociais, culturais e políticas, o lingüista aplicado ampliou seus estudos.
Interessado na linguagem como política e histórica, o lingüista aplicado começou a abordar as questões e os problemas da linguagem à medida que ocorriam no mundo real. O interesse pelo produto, deu lugar à investigação dos processos envolvidos no ensino-aprendizagem. Nesse estudo, o lingüista aplicado viu-se carente de teorias e buscou apoio na importação de teorias que se deslocaram da Lingüística somente, e interagiram-se com outras áreas.
O lingüista aplicado teve seu campo de atuação ampliado e passou a estudar questões diversas sobre o ensino-aprendizagem; a política e planejamento educacional; a linguagem em contextos educacionais; a tradução; a interpretação; a lexicografia; o multilinguismo; a linguagem e a tecnologia; a patologia da linguagem; o corpus lingüístico; o papel do gênero, raça, etnia, classe, idade, preferência sexual e outras distinções no processo de ensino-aprendizagem; a alfabetização; a aquisição de uma outra língua; os direitos das minorias; a formação de professores; entre outros.
Nessa expansão de trabalho, o lingüista aplicado iniciou pesquisas com um fundamento discursivo e sócio-histórico. Como um ativista político, seu interesse hoje está em pesquisar problemas sobre os quais os estudos possam trazer mudanças para a realidade. O lingüista aplicado do novo milênio preocupa-se com as óbvias e múltiplas iniqüidades da sociedade e, por isso, está mais sensível às questões sociais, culturais e políticas. Ele começa a assumir projetos pedagógicos, políticos e morais para tentar propor saídas para problemas de linguagem no mundo real e mudar as circunstâncias de desigualdade.
Como se pôde observar, a LA tem a sua história permeada por transformações e pela busca de identidade. Seus princípios foram expandidos e suas fronteiras alargadas. As tendências e perspectivas mostram um lingüista aplicado com preocupações de um pedagogo crítico, preocupado, atualmente, em propor alternativas para os múltiplos problemas de linguagem no mundo real a fim de possibilitar ao ser humano acesso aos aspectos mais essencialmente políticos da sua vida.
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